Na obra Crônica de uma morte anunciada, do colombiano e Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Marques, todos os habitantes do lugar onde os fatos retratados pelo autor ocorreram, sabiam de antemão que os irmãos Pedro e Pablo Vicário iriam matar Santiago Nazar, o protagonista da trama, para ‘lavar a honra’ da irmã que teria sido deflorada por ele. Apenas a vítima não acreditou que o crime realmente pudesse se consumar.
No processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, vive-se uma situação parcialmente análoga à da crônica famosa, pois, ao que parece, somente ela ainda não se convenceu que será definitivamente afastada do cargo.
A confirmar que não acredita na cassação, continua falando e portando-se, pelos quatro cantos do país e alhures, como se presidenta ainda fosse.
Sabe-se que o processo segue rito legal no Senado Federal. Também é verdade que está sendo concedida a Dilma, constitucional e sagrado direito de defesa.
O seu advogado já elaborou centenas de páginas tentando demonstrar que ela não cometeu crime de responsabilidade.
Porém, todos os que assistem às audiências da Comissão Processante têm certeza de que tudo ali não passa de jogo de cena, mero cumprimento protocolar do rito. A maioria absoluta dos senadores tem deixado claro que já se inclinarem pela opção do impedimento.
Outra coincidência entre a crônica de Garcia Marques e o processo de impeachment, está o fato de que, assim como no precedente literário, os habitantes da localidade onde os fatos se deram, nunca tiveram certeza de que tivesse sido, realmente, Santiago Nazar a deflorar Ângela Vicário, a irmã dos assassinos.
Também hoje não se tem certeza — e talvez nunca se terá — de que Dilma Rousseff tenha, realmente, cometido crime de responsabilidade. Há respeitáveis entendimentos de juristas de escol, nos dois sentidos.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial, professor da Faculdade de Direito de Franca
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