“Quem não tem estudo é cego. Não é cego de tudo, mas é um cego que vê o mundo e não entende nada.” Aos 49 anos, é dessa forma que o pedreiro Lucinaldo Souza de Assis definiu a condição de quem, assim como ele, viveu ou ainda vive no analfabetismo. Em uma sala de aula do AJA (Alfabetização de Jovens e Adultos) programa da Rede Municipal de Ensino de Franca, ele se junta a um público que procura enxergar um mundo novo.
“Temos hoje cerca de 500 alunos. Desses, 54% são mulheres com mais de 60 anos; que vieram daquela cultura em que o pai não deixava a filha estudar porque a função dela era ser boa dona de casa. Depois, o marido também não deixava por ter a mesma mentalidade”, disse a diretora do programa, Rita Mozetti. Ainda de acordo com ela, a grande maioria dos outros 46% é formada por homens e mulheres vindos de outros Estados do Brasil. Entre eles, está o pedreiro Lucinaldo, que veio da Paraíba. “No Nordeste, as coisas são mais difíceis. Nem todo mundo tem oportunidade de estudar e a gente começa a trabalhar muito cedo. Fui para a agricultura aos 10 anos, para ajudar meu pai.”
Na sala de aula, tem como companheiro o também pedreiro Marcos Jesus Alves, baiano de 37 anos. Ambos são pais de família e fizeram questão de que seus filhos não passassem pelas mesmas dificuldades que a falta de estudo causou a eles.
“Procurei a escola porque quero me tornar uma pessoa independente. Tudo o que eu preciso fazer, preciso da minha mulher”, disse Marcos. “Quando fomos comprar nossa casa, ela quem teve que ler todos os papéis porque eu não poderia. Não tenho uma conta aberta em banco porque não sei mexer nos caixas eletrônicos”, disse.
Há quatro meses frequentando o AJA, Marcos já consegue enxergar melhor o mundo e isso tem dado a ele ânimo para não desistir. “Trabalho o dia inteiro como pedreiro e, às vezes, abro a boca de sono em sala de aula, mas não vou desistir. Peguei gosto. Cheguei aqui sem conseguir ler nada. Hoje, pego uma lista de compras para ir ao supermercado e já consigo ler. Antes, ou decorava ou tinha que ficar ligando pra minha mulher”, disse.
Uma característica marcante nos adultos ainda não alfabetizados é o início precoce no mundo do trabalho. Lucinaldo começou a trabalhar aos 10 anos, na agricultura. Marcos, aos 9, como açougueiro e a mineira Aparecida Neuza Fonseca, dona de casa de 69 anos, abriu mão da adolescência para ser “mãe” de seus irmãos. “Fui criada na roça, fiz até o terceiro ano, mas nunca tive diploma. Fui para a cidade, pela primeira vez na minha vida, aos 12 anos. Foi na época em que minha mãe morreu e tive que cuidar dos meus irmãos. Éramos em 9 e fui criar os mais novos, de 10, 8, 6 e 2 anos.” Seu objetivo no AJA é conquistar seu primeiro diploma.
“Não culpo meus pais nem a vida. Aprendi a ter dignidade, mas, se pudesse ter mudado alguma coisa, seria ter estudado”, resumiu Lucinaldo.
Sobre o AJA
O AJA (Alfabetização de Jovens e Adultos) existe há 20 anos já teve nomes como Mobral e Supletivo. Atualmente, ele funciona em 17 pontos, como escolas, capelas, entidades assistenciais e até canteiro de obras. São 500 alunos e o ensino é gratuito.
“Não há período para se matricular, basta nos procurar. Além das aulas, oferecemos o kit escolar gratuito para que a pessoas já inicie o aprendizado”, disse a diretora do AJA, Rita Mozetti.
Ainda de acordo com ela, todo o material pedagógico utilizado em sala de aula é preparado por profissionais da Rede Municipal, que passaram por capacitações para lidar com a alfabetização adulta. “O professor tem que partir da realidade de mundo desses alunos e isso passa até pela construção do alfabeto”, afirmou. “Não vamos trabalhar a letra T usando a palavra “tatu”, com um adulto. Vamos procurar palavras da realidade dele. Por exemplo: se atua na construção civil, traremos “trator”. Na costura, “tesoura””, disse Rita. “É por isso que não trabalhamos uma cartilha de ensino infantil em sala de aula. Optamos por poesias, notícias de jornais, músicas e outros conteúdos.”
Segundo Rita, há no histórico do AJA egressos que terminaram o Ensino Básico, foram promovidos e passaram em concursos públicos. Os interessados em mais informações sobre o AJA podem ligar no (16) 3711-9228.
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