Há pelo menos dois anos o Brasil vem vivendo uma séria crise econômica que causou a estagnação na produção industrial e o aumento do desemprego. Por causa disso, temos hoje mais de 11 milhões de desempregados que, em razão do mercado de trabalho retraído, não conseguem uma nova colocação. Muitos buscam a informalidade e outros se sujeitam a aceitar a redução dos vencimentos para se manterem no mercado de trabalho, em condições de manter a duras penas o orçamento familiar. Diante disso, grandes empresas brasileiras estão fechando acordos de redução de salários e da jornada de trabalho para evitar uma demissão em massa. Estes acordos, que exigem a intermediação dos sindicatos de trabalhadores, foram capazes de manter milhares de empregos nas maiores indústrias do País, principalmente do setor automobilístico, que há meses enfrenta quedas sucessivas nas vendas.
Diante de uma crise sem precedentes, não se entende a atuação do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Calçados de Franca durante uma negociação com a empresa Carmen Steffens. a qual propôs redução de jornada e salários para evitar a demissão de pelo menos 200 funcionários. A entidade, que deveria defender os direitos dos trabalhares, recusou-se a fechar um acordo com a indústria, provocando um forte protesto dos trabalhadores, na tarde de ontem. Os empregados da Carmen Steffens, em coro, defendem o acordo. “É preferível manter o emprego”!, dizem. Os trabalhadores que protestaram na tarde de ontem garantiam preferir perder um pouco no salário agora, mas ter emprego garantido até março, com a esperança de que tudo melhores até lá.
A proposta, que poderia aparecer oportunista em outra situação, insere-se perfeitamente dentro da situação atual por que passa o País: a crise é real e, ao contrário do que sugerem os dirigentes do sindicato dos sapateiros, não é uma invenção ou “desculpa”. Em que pese ter partido de um empresário tão controverso como Mário Spaniol, brasileiros estão perdendo o emprego e esse tipo de proposta tem sido considerada uma alternativa válida em diferentes segmentos. A posição da entidade de se encerrar as negociações apenas por discordar da proposta não resolve em nada a situação das duas centenas de trabalhadores ameaçados de ir para a rua e engrossar as estatísticas do desemprego. Valeu a pressão dos sapateiros, que conseguiram a promessa do sindicato em retomar as negociações. Porém, pelo que se viu ontem, não há o que discutir e sim acompanhar os anseios daqueles a quem interessa o acordo: os trabalhadores que aceitam a redução de salários e da jornada com a promessa de manutenção dos empregos até março de 2017.
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