A volta da mordaça


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O projeto de lei nº 193 de 2016, de autoria do senador Magno Malta, em tramitação no Senado em atendimento a interesses do grupo chamado ‘Escola sem Partido’ é, na verdade, tentativa de coibir ações que vise proporcionar ao aluno, concepção própria para se analisar a realidade e se colocar enquanto instrumento de transformação da mesma. 
 
Transformar a realidade econômica e social de modo a por fim às mazelas que se traduzem na miséria de milhões de brasileiros e do abandono dos mesmos pelo Estado, é o que as elites econômica e política não aceitariam. Significa que em sala de aula, professor não deve criticar o histórico de governo que resultou país com uma das mais brutais concentrações de renda do mundo, bem como não denunciando desamparo nas áreas sociais, como a saúde.
 
Chama atenção o fato de que o movimento ‘Escola sem Partido’ emergiu com maior poder de manifestação num contexto marcado pela ocupação de várias escolas estaduais paulistas, por alunos secundaristas. Nossas elites ficaram estremecidas quando constataram que, organizados e focados na defesa de um ideal, alunos resistiram a projeto imposto — a reorganização de ciclos imposta pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo — e, entendendo que se tratava de enxugamento de recursos para a educação, conseguiram anular a infeliz reestruturação. De repente, veio o medo de que, precedente nessa mobilização, a sociedade organizada começasse a bater nas portas do Estado e exigir fiel cumprimento de direitos assegurados pela Constituição.
 
Para o ‘Escola sem Partido’, os donos do poder não podem ser contestados. Até mesmo na área ambiental, não se pode dizer que a devastação da Amazônia não trouxe qualquer melhoria nas condições de vida do povo nortista. Muito menos que só proporcionou fortunas para latifundiários e exploradores de madeira nobre vendida a países ricos, os mesmos que criticam a destruição da floresta. 
 
Deseja-se, objetivamente, impor mordaça ao professor e formar alunos acríticos. Se não pode recolocar os malditos militares no poder, o movimento ‘Escola sem Partido’ está propondo forma velada de censura. 
 
Entendo que não se trata de defender esta ou aquela ideologia; muito menos, partido político. Isto sim, tem que se dotar alunos da capacidade própria de desvendar a realidade, e de liberalidade para se manifestar e lutar por uma sociedade mais democrática, participativa e socialmente justa. Também, que caminhe na valorização da pluralidade de ideias e de espaços convidativos ao diálogo, sem contaminação por convicções religiosas ou de qualquer forma de discriminação.  Devemos nos opor ao movimento ‘Escola sem Partido’. Caso contrário, assistiremos professores serem processados ao garantir direito de voz aos excluídos, ou por se fazerem instrumentos da construção de um país para todos.’
 
DÁRSIO CÂNDIDO BATISTA: Dársio é professor preocupado com a falta de informação que caracteriza o cidadão brasileiro. Está certo. A maioria de nós não está nem aí quanto a ‘o quê?’, ‘onde?’, ‘quem?’, ‘quando?’, ‘por quê?’. Sem informação, ter opinião é quase impossível. Então, e é histórico, há gerações inteiras de calados. Em terreno tão pródigo, quem tem informação e nenhum caráter, torna quem não tem, meros referenciadores de seus desejos. Dársio se preocupa com isso. Comenta, com grande regularidade, o que este Comércio publica. Concorda, ou não. Reclama. Aplaude ou vaia, mas nunca deixa de manifestar seus achares. Ensina na escola e fora dela: não podemos ficar calados! Hoje, dentre temas que tenho trazido a este meu espaço semanal de debate, mostra-se contrário ao ‘Escola sem Partido’. Contrarie ou concorde, mas faça soar sua própria voz. (Para saber mais, vá a consulta pública no site do Senado: https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=125666).
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

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