Cairia hoje, sim, o meu requerimento. Mas, de amanhã em diante, eu o renovaria sessão por sessão, dia por dia, tantas vezes quantas o rejeitásseis e até o fim das sessões. E, no ano que vem, voltasse a esta casa reeleito, acabassem vencendo aqui os celerados, os padrinhos dos celerados, ao abrir-se a futura sessão legislativa, o meu primeiro ato seria apresentar de novo o meu requerimento, não enfraquecido pelo tempo, não desmoralizado pelos reveses, mas, bem longe disso, mais solene, mais imperioso.
Seria possível que o novo congresso eleito, câmara renovada, melhorada, reanimada por uma eleição concluída sob as influências da liberdade e regeneração, que o governo de agora anuncia, esposasse a causa do governo cobarde e traiçoeiro, hoje morto e remorto, que oculta sua responsabilidade sob a dos infelizes executores de suas ordens? Seria possível?
Então só restaria à minha sinceridade, ao meu civismo, à minha honra, aos meus sentimentos de homem e cristão uma atitude: a de renunciar ao meu mandato, para não continuar a pertencer a corpo de legisladores que viole abertamente o Código Penal, que transforme a política no valhacouto da ferocidade, que exclua do parlamento a lei, a humanidade, a civilização, que recusem acintosamente o desafogo da justiça ao clamor do sangue derramado.
Aí tendes, senhores: ou eu eliminaria da política brasileira esse crime ou esse crime me eliminaria da política brasileira. Para mim, para as minhas convicções, para as minhas crenças, ou para o meu pudor não poderia haver lugar numa assembléia, que se desembaraçasse de todos os seu deveres, para lavar com a nossa cumplicidade o sangue do morticínio.
Até aí, porém, ainda teríamos muito que trabalhar, senhores, muito que trabalhar e muito que ver. Porque a nossa nova causa era então muito simples. Não se trataria de apelar para esses altos ideais que as multidões nem sempre compreendem. O de que se trataria, era de organizar uma batida, em nome dos interesses mais sensíveis de todas as criaturas viventes, contra o regíme dos sanguinários, contra a política dos algozes, contra a oligarquia dos canibais.
Basta, senhores. É a hora do voto. Recolhei-vos, escutai a voz de Deus, e, se houverdes de negar justiça ao sangue que por ela clama aos céus, lembrai-vos que ainda nos restará, para nossa vingança, para a nossa desforra, para o nosso triunfo, a justiça dos vossos remorsos, a justiça da opinião, a justiça da Providência, a quem não escapam os que escaparem à da sua consciência e à do horror de seus semelhantes.’
RUY BARBOSA DE OLIVEIRA: Advogado, jornalista e senador baiano. Na Conferência de Paz de Haia (1907), defendeu a teoria brasileira de igualdade entre ações. Em 1916, no centenário da independência argentina, discurso seu causou o fim das relações entre Brasil e Alemanha. Escreveu em A Imprensa, Jornal do Brasil e Diário de Notícias. Fundou e foi um dos presidentes da Academia Brasileira de Letras. Paraninfo dos formandos de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, produziu ‘Oração aos Moços’, onde está o trecho mais citado de sua obra sempre atual: ‘De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e ter vergonha de ser honesto’. O texto principal de minha coluna está em ‘Discursos Parlamentares’, volume 41, t.3, 1914, p.69-97, de Ruy. Diz o que penso sobre sessão da Câmara Municipal que analisou, dia 28, a cassação do atual prefeito de Franca, e o inocentou de quatro acusações que tribunais não políticos ainda o têm como alvo. Eu agregaria às especializações de Ruy, a vidência. Morreu aos 73 anos. Frente ao que seu espírito observa ainda hoje no Brasil, seu corpo deve continuar se revirando, enojado, no túmulo...
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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