O prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) deve continuar no comando da Prefeitura até 31 de dezembro. Em uma sessão histórica que durou seis horas, ele foi absolvido em todas as quatro acusações a que respondia no processo de cassação de seu mandato, aberto pela Câmara Municipal. O acordão fechado com o PSB, do pré-candidato a prefeito Marco Aurélio Ubiali, foi decisivo para que Alexandre fosse absolvido. Dos seis votos favoráveis à continuidade de seu governo, três foram dos vereadores do PSB.
A sessão de julgamento lotou o plenário. Uma das primeiras a chegar foi a primeira-dama Cynthia Milhim, acompanhada de seu sogro Gualter Ferreira e dezenas de comissionados. Uma hora antes do início da sessão, ela já recebia os simpatizantes que se posicionaram estrategicamente nas primeiras cadeiras, logo atrás dos vereadores. Alexandre não compareceu.
Eram 17h25 quando o presidente da Câmara, Marco Garcia (PPS), abriu os trabalhos. Logo no início, a primeira discussão. O relator do processo de cassação, Márcio do Flórida (PDT), pediu permissão para ler o relatório final da Comissão Processante. Luiz Vergara (PSB), ex-líder de Alexandre, disse que não havia essa previsão no rito de julgamento. Marco Garcia interveio e permitiu a leitura. O grupo de apoiadores do prefeito que assistia à sessão protestou. Em vão.
Não demorou para que os servidores municipais a favor da cassação chegassem. Aos poucos, eles foram tomando lugar no plenário. No meio da leitura de Márcio, mais uma confusão. O grupo de apoio do prefeito começou a levantar cinco faixas em que estava escrito “Não houve crime”. Como o grupo estava nas primeiras cadeiras, as faixas impediam os servidores de assistir à sessão. Um bate-boca começou entre um professor municipal e a irmã de Alexandre Ferreira. A discussão só terminou depois que Marco Garcia suspendeu a sessão.
Por volta das 18h30, os trabalhos foram retomados. Márcio ainda lia o relatório quando mais uma confusão ocorreu. Desta vez, envolvendo policiais militares que estavam na Câmara e barraram a entrada de cerca de 30 pessoas. Os policiais disseram que a ordem era do presidente da Câmara. Ao ser informado, Marco Garcia negou. “Não seria eu a cercear o direito do cidadão. Eu não dei essa ordem.” Mesmo com a declaração, os policiais insistiam em não permitir a entrada. Foi preciso suspender mais uma vez a sessão para que Marco Garcia conversasse com os policiais e liberassem as pessoas.
Assim que Márcio terminou sua leitura, foi a vez dos vereadores começar a justificar seus votos. Cada um teve direito a usar a tribuna por 15 minutos. O primeiro a falar foi o ex-líder de Alexandre, Adérmis Marini (PSDB). “Eu voto com a minha consciência. Sei que sofrerei retaliações, mas não poderia votar diferente. Sou a favor da cassação.” Os servidores presentes aplaudiram.
Em seguida, Donizete da Farmácia (PSDB) usou a palavra. Ele tentou defender Alexandre, afirmando que o prefeito não sabia dos falsos médicos e dizendo que os falsários atuaram também nos hospitais particulares. Foi vaiado. E novamente a sessão foi suspensa. Desta vez, por 30 minutos.
Na volta, Donizete terminou sua fala. Em seguida, foi a vez do presidente da Comissão Processante, Daniel Radaeli (PMDB), que fez um desabafo. “Fui chamado de chefe da Gestapo, de delegado truculento. Eu fiquei quieto. Mas quero lembrar que não tenho nenhum processo judicial ou na Corregedoria (da Polícia Civil). Não fiz conluio, como fui acusado pela defesa do prefeito.” Foi muito aplaudido.
Depois falaram: Zezinho Cabeleireiro (PPS), Pastor Otávio (PTB), Marcelo Valim (PSD), Márcio do Flórida e Valéria Marson (PSD). Os demais não quiseram se pronunciar, em uma clara estratégia para agilizar a votação.
Foi então a vez do advogado de Alexandre Ferreira, José Arnaldo Freire, defender o prefeito. Falou mais do mesmo. Usou os mesmos argumentos já derrubados pela Justiça em quatro derrotas sofridas pelo prefeito nos processos judiciais. Por fim, afirmou que as denúncias não passavam de uma “retaliação política” e que Alexandre Ferreira foi o “melhor” gestor que a cidade já teve. Enquanto ele discursava, os servidores se retiraram do plenário em protesto.
Eram 21h40 quando começaram as votações sobre a responsabilidade de Alexandre nos quatro crimes dos quais era acusado. Em todas, o placar foi o mesmo: seis votos a nove. Eram necessários dez votos para a cassação. Votaram a favor da absolvição: Laercinho do Paiolzinho (PMDB), Luiz Vergara (PSB), Luís Cordeiro (PSB), Claudinei da Rocha (PSB), Donizete da Farmácia e Josivaldo Bahia (PTN).
Com a confirmação da absolvição, a primeira-dama foi uma das que mais comemorou. Abraçada com familiares, chorou. Aos poucos, o plenário foi se esvaziando. Os seis vereadores favoráveis a Alexandre foram os primeiros a sair.
Por fim, Márcio do Flórida e Daniel Radaeli lamentaram o resultado. “Fizemos nossa parte. Cada um é responsável por seu voto. Espero que, daqui em diante, o cidadão cobre. Sem violência. Apenas cobre e exerça seu papel”, disse Radaeli.
As acusações
O processo de cassação contra Alexandre Ferreira foi aberto no dia 19 de abril. Nele, ele foi acusado de cometer quatro infrações político-administrativas.
São elas: ter se negado a entregar documentos públicos da Prefeitura aos vereadores, ter desrespeitado a lei de licitações ao renovar por quatro vezes seguidas os contratos com o ICV (Instituto Ciências da Vida), empresa acusada de fraudar fichas médicas e de contratar falsos médicos; ter sido omisso na fiscalização desses mesmos contratos e, por fim, ao cometer todas as demais infrações, ter agido sem o decoro exigido pelo cargo.
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