'Acredito que a Francana já era. Muito difícil recuperar'


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A opinião de Ibirá de Carvalho, 77, sempre foi relevante. Por quase quatro décadas, ele avaliou o desempenho dos times da Francana e do basquete
A opinião de Ibirá de Carvalho, 77, sempre foi relevante. Por quase quatro décadas, ele avaliou o desempenho dos times da Francana e do basquete
“Bom dia, ouvintes.” Quando o dono da voz grave e bem empostada fazia esta saudação nas ondas do rádio, a cidade parava para ouvir o que ele tinha a dizer. A opinião de Ibirá de Carvalho, 77, sempre foi relevante. Por quase quatro décadas, ele avaliou o desempenho dos times da Francana e do basquete. Autêntico, sem papas na língua e sem medo de falar a verdade, colecionou admiradores. Também desagradou muita gente. Ibirá foi amado e odiado pelos torcedores.
 
Ibirá começou a carreira em 1963. Por sete anos, trabalhou nas rádios Hertz e Imperador. Mas, foi na Difusora, onde construiu sua história e se consolidou como o comentarista mais respeitado e ouvido durante 31 anos. Ele se afastou dos microfones em 2001. Mantém o hábito de ouvir as emissoras da cidade e de ler os cadernos de esporte dos jornais. Permanece o mesmo crítico de sempre.
 
Por onde anda Ibirá de Carvalho?
Eu continuo na lida do dia-a-dia na minha loja. Vendo peças de máquina de costura industrial. Vou trabalhando devagarzinho, sem alarde, sem muita coisa, só para ocupar o tempo.
 
O senhor sente saudades do microfone?
Bastante, mas hoje não teria mais como voltar no tempo. Tudo passa, a gente fica afastado. Eu tenho um problema na coluna um pouco sério, que não consigo caminhar com facilidade ou ficar em pé com facilidade. Recebi vários convites para voltar e, por esse motivo, agradeci, mas não teve como. Hoje, eu só ouço as emissoras, mais a nossa Difusora, sem demérito para as outras, mas, como passei muito tempo na Difusora, é minha emissora, sem dúvida alguma. É na rádio que me informo das coisas com o Jovassi (Corrêa Dias), com o Valdes (Rodrigues), com o Everton (Lima), com todo mundo. Também leio o Comércio da Franca e o Lance todos os dias.
 
O senhor estima quantas transmissões esportivas participou?
Não tem como. Tinha semanas que a gente fazia duas, três e até quatro partidas. Futebol sempre era nas quartas e domingos. Já o basquete, tinha semanas com dois, três jogos. A gente ia em todos. Comentei jogos de basquete, inclusive, na Argentina.
 
Tem alguma transmissão que ficou marcada na carreira do senhor?
Negativamente, foi a jornada que a Francana fez em São Carlos. Teve um representante de fábrica de sapato aqui de Franca que vendia em São Carlos. Ele tentou comprar o goleiro do time deles sem ordem da diretoria. Nós tínhamos um bom relacionamento em todos os lugares que a gente ia. Quando chegamos lá, nos surpreendemos com um clima de guerra. O pessoal chegava e batia na torcida da Francana. A polícia estava do lado e não fazia nada. Naquela época, o Verzola era o narrador, o Renato Valim fazia as reportagens de campo e o Xaropinho ficava na técnica. A gente tinha uma cabine dessas de ferro, montada, e a gente ia se afastando para que eles não nos vissem. Caso contrário, a gente teria apanhado também. Foi a jornada mais negativa, horrível, que tive na minha vida. Graças a Deus, não fomos atingidos, mas faltou pouco. Não me lembro a época. A Francana estava na divisão intermediária.
 
O senhor foi o comentarista mais polêmico de Franca. Sofreu muitas ameaças por conta deste posicionamento incisivo?
Ameaçado, não, mas tinha muita pressão sim. As cabines de transmissão ficavam muito próximas dos torcedores. Sempre tinha os mais exaltados, que xingavam, que cobravam, mas eu nunca me escondi. Trabalhei com a minha honestidade. Eu sabia muita coisa que o torcedor não sabia. A diretoria da Francana ficava louca para saber como eu recebia as informações. Quando temos credibilidade, as fontes sempre nos passam notícias exclusivas. Na época, eu não podia revelar as fontes. Hoje, eu posso: eram três jogadores. Eles contavam para as esposas deles e elas me passavam as notícias. Nem sempre somos entendidos quando fazemos críticas. Mas, quando fazemos o trabalho bem feito e com responsabilidade, as pessoas podem falar o que quiserem. O importante é ter a consciência tranquila e dormir em paz. Isso, eu sempre fiz.
 
A opinião do senhor sempre foi muito relevante. Os ouvintes faziam questão de saber o seu posicionamento. Como avalia essa responsabilidade?
Com muita felicidade. Muitos me criticavam, mas, se criticavam, é porque estavam ouvindo, porque gostavam. Se a pessoa não gosta e acha que você fala bobagem, não te ouve. O retorno que eu recebia dos ouvintes era motivo de muita alegria.
Teve uma época que a gente foi obrigado a criticar, quando o Assis jogou na Francana. Ele foi vendido de madrugada sem ninguém saber. Cobramos isso do presidente da época e ele disse que vendeu porque diretores haviam colocado muito dinheiro na Francana e estavam pedindo para receber. Como não tinha dinheiro, ele vendeu o Assis. Eu falei isso na rádio, na hora do almoço. Logo depois, uns três diretores me ligaram e disseram que era mentira, que nunca haviam pedido o dinheiro de volta. Então, eu falei isso na rádio. O presidente pressionou o Ruy (Pieri, ex-dono da Difusora) e disse que iria tirar a propaganda que ele fazia na rádio. Essas pressões sempre existiam.
 
O senhor foi mais amado ou odiado pelos torcedores?
Acredito que fui mais amado. Tem sempre alguém do contra, mas a maioria respeitava o meu trabalho, vinha conversar comigo. Nunca me escondi. Eu chegava na rádio às 11h15. O programa ia ao ar das 11h30 ao meio-dia. Eu saía e ia para casa. Nunca trabalhei com porta fechada. Nunca teve um torcedor que chegou e falou que iria me bater ou me matar. Só a filha de um treinador.
 
Como assim?
Foi uma passagem folclórica. O treinador era aquele que foi goleiro do Santos. Ele pediu a contratação de um jogador que pertenceu ao São Paulo. Era centroavante e já estava aposentado. Ele veio jogar aqui. Fiquei sabendo que os jogadores eram obrigados a passar a bola para esse jogador fazer gols e justificar a contratação. Critiquei isso na rádio.
Daí, a filha do treinador me mandou um aviso que iria me pegar depois da transmissão. Quando eu saí da cabine, tinha umas 200 pessoas do lado de fora. Ela veio em minha direção e me xingou de gordo, vagabundo. Eu falei: “Sou gordo, mas sou homem. Agora, sua barriga está crescendo. Você sabe quem é o pai?” Eu sabia que ela andava com dois jogadores da Francana. Ela deu meia-volta e vazou. 
 
Por que uma cidade do porte de Franca, com cerca de 350 mil habitantes, não tem um time na elite do futebol paulista? Por que a Francana está na quarta divisão?
O grande problema é a falta de credibilidade da diretoria. Mesmo naqueles tempos bons, a diretoria deixou muito a desejar. Teve um ano que o Samello patrocinou a Francana e logo depois parou. Perguntei o motivo aos diretores da empresa. Eles me falaram que a única coisa que haviam exigido era que um diretor deles fizesse parte da diretoria da Francana. Isso foi combinado. Só que a diretoria da Francana marcava a reunião para quinta-feira, mas fazia um dia antes para não ter o representante do Samello. Isso foi desgastando.
Tivemos grandes presidentes, como o Riad Salloum, o Wagner Garcia e o Otto Sandoval, que subiu a Francana. Depois, foi decaindo. Nem vou citar nome, mas teve jogador que virou presidente. Como presidente não ganha, ele se nomeou como diretor de esportes para ganhar. Este tipo de coisa foi desacreditando. Hoje, se você bater de porta em porta e pedir R$ 100 para a Francana, você não consegue R$ 20. Não estou dizendo que roubam, mas perdeu a credibilidade. Ninguém quer mais aplicar na Francana.
Eu acho que, lamentavelmente, é muito difícil a Francana reerguer. Muito difícil. Há uns dois ou três anos, o Marcos Silva tentou pegar a Francana. Tinha a anuência da Prefeitura por causa da Liga, mas os “entendidos” lá não aceitaram e o futebol caiu ainda mais.
 
Na sua opinião, a Francana já era?
De um a dez, acho que oito já era. Muito difícil se recuperar. A parte financeira é muito complicada. É muito caro manter um time de futebol. Não é viável. Apenas os times grandes conseguem sobreviver, mesmo assim, enfrentam dificuldades.
 
O que prevê para o basquete?
Gosto muito do Helinho, ele é nota dez, amo o Helinho. Tem muita credibilidade e vai fazer um bom trabalho. O problema, como no caso do futebol, é a parte financeira. Vamos ter basquete em Franca por muito tempo ainda, mas para disputar títulos, acho que vai ser difícil. Os bons jogadores recebem na faixa de R$ 50 mil a R$ 80 mil. É muito dinheiro. Eles não vão vir jogar aqui para receber R$ 10 mil. É difícil montar um time competitivo.
 
Além de comentarista, o senhor também foi jogador e diretor de futebol...
Sim, eu joguei no Palmeirinhas nos anos 50. Era goleiro. Também ajudei a dar treino de basquete na quadra de cimento do EETC. Por causa do basquete, o pessoal do Palmeirinhas me colocou no gol, pois achava que eu tinha facilidade com as mãos. Tempos depois, assumi a presidência, pois não tinha ninguém para assumir.
 
O senhor também foi árbitro de futebol. Como foi essa experiência?
Além de futebol, também apitei basquete e vôlei. Apitei um jogo da seleção brasileira de basquete, quando inaugurou a quadra da Escola “João Marciano”. Como a seleção não trouxe juiz e o pessoal de Franca também não pensou nisso, sobrou para mim. Eu estava na arquibancada e fui chamado às pressas. Apitei o jogo sozinho. Hoje, em três, eles erram. Também apitei um jogo profissional da Francana contra o Itumbiara e um da seleção brasileira de máster, quando o Rivelino era treinador. 
 
Dizem que o senhor foi “expulso” de campo pelos jogadores da seleção. É verdade ou lenda?
Eu fui homenageado como árbitro naquele jogo da seleção contra o time da Francana, que foi campeão em 1977. O combinado era que eu apitasse alguns minutos, mas eles deixaram eu ficar todo o primeiro tempo. Eu anulei um gol da seleção, mas não teve nada de expulsão, não (risos). Virou lenda.

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