Sérgio Henrique Ferreira


| Tempo de leitura: 3 min
O menino Sérgio nasceu na Estação, filho de mãe farmacêutica e padrasto médico. Com a família, deixou Franca quando tinha  quatro anos. Em São Paulo, certo dia, foi encarado por estudante de medicina. ‘Eu disse a ele que seria médico, e ele, sorriso cínico, disse: ‘Você? Jamais!’ O confronto direcionou o menino à carreira queo faria personalidade internacionalmente conhecida.
 
Não voltou mais a Franca; ou melhor, voltou só uma vez. ‘Fui, como universitário, jogar basquete contra Franca numa edição dos Jogos do Interior. Levei uma surra desgraçada. Se ainda alimentava algum amor pelo esporte, ficou lá naquela quadra’.
 
Formado, dedicou-se à pesquisa. Soube que na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto atuava o pesquisador Maurício Rocha e Silva, desenvolvedor da bradicinina — combinação de enzima com veneno da cobra jararaca — que permitiu a criação de medicamento contra hipertensão. Com ele como orientador, doutorou-se em Farmacologia e debruçou-se em pesquisas que, acreditava, poderiam agregar mais valor ao medicamento.  Em 1963, mostrou êxito publicando estudo sobre substância que identificou como potencializadora do efeito da bradicinina. A aplicação mais imediata, produção de  medicamento de uso oral para hipertensão arterial. O feito correu rapidamente o mundo e o tornou visível. 
 
Suas pesquisas, entretanto, sofreram descontinuidade por conta de ativismo político, ele e a família vigiados pela ditadura militar. Decidiram-se, então, rumar a Londres. Lá, ela fez pós-graduação e ele foi atuar na equipe do pesquisador John Vane, que se tornaria Prêmio Nobel de Medicina de 1982. Tornaram-se muito próximos. Escreveram obras reconhecidas internacionalmente como referenciais, uma sobre dor, e outra sobre inflamação. Sociedades médicas de vários países colocaram Sérgio como um dos pesquisadores mais produtivos a atuantes do mundo. Voltaram ao Brasil em 1975, quando julgaram estar o cenário político mais tranquilo. Reempregou-se na USP de Ribeirão Preto e lá trabalhou até à aposentadoria, em 1978, permanecendo como  orientador de pesquisas até afastar-se definitivamente em função da idade. 
 
Recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico do Brasil, foi professor emérito da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências, da Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos, e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência centrado na melhoria da qualidade da produção científica brasileira e pela integração da pesquisa e da indústria. 
 
Tinha um profundo bom humor. Em manifestações públicas de protesto de variadas épocas, foi para as ruas junto à mulher. ‘Queríamos continuar os moleques que sempre fomos, entender os moleques da época e brigar, junto com eles’, disse em 2013, aos repórteres Bruno Piola e Cassiano Lazarini, deste Comércio, que o entrevistaram em sua casa ribeirãopretana.
 
Dois prêmios foram criados para homenageá-lo, e à sua pesquisa: o ‘Ferreira Award’, pela Sociedade Norueguesa de Hipertensão; e o ‘Prêmio Ciba de Hipertensão’, pela Associação Americana do Coração. ‘Sinto-me contente em ter prêmios com meu nome porque dá visibilidade à universidade, mas não me empolga. Quem me empolga, mesmo, é minha mulher’. 
 
Confrontado com a grandeza de sua obra, frase quase irônica, como a dizer que só tinha feito sua obrigação: ‘Porra, fiz alguma coisa para este Brasil e para este mundo!’ Sobre a situação da saúde pública no Brasil, expressão séria: “Não existe nada coerente, ninguém pensando em fazer algo nos próximos cinco anos para que a minha população não tenha determinadas doenças. Pena’.
 
Sérgio, médico, bioquímico e farmacologista nascido francano, morreu em Ribeirão Preto dia 19, aos 81 anos. O atestado de óbito registrou insuficiência respiratória. Deixou, viúva, a pesquisadora Clotilde Therezinha Rossetti Ferreira; e órfãos os três filhos, Fernando, Marco e Beatriz, e a pesquisa médica mundial.
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários