Morte do Padre Dé encerra luta das vítimas


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Padre José Afonso Dé morreu, aos 81 anos, na última quinta-feira. Ele foi condenado por pedofilia
Padre José Afonso Dé morreu, aos 81 anos, na última quinta-feira. Ele foi condenado por pedofilia
A morte do padre José Afonso Dé, o Padre Dé, na última quinta-feira, dia 14, encerra a luta de mais de seis anos por Justiça travada pelas vítimas do religioso. Com seu falecimento, todos os processos penais contra o Padre Dé serão extintos sem uma sentença definitiva. 
 
Em 2010, o Padre Dé foi acusado por um grupo de adolescentes da Paróquia São Vicente de Paulo, no Jardim Tropical, de beijá-los e acariciá-los à força. O caso veio à tona por meio de uma denúncia anônima feita ao Conselho Tutelar, que ao ouvir os garotos levou o caso para a Delegacia da Mulher. Lá, foram ouvidas 33 pessoas, entre vítimas, parentes, testemunhas e religiosos. 
 
Os relatos dados à época chocavam. Segundo os garotos, o padre costumava usar a sacristia da igreja ou mesmo a casa onde morava, que servia também para abrigar alguns meninos, para os abusos. Um jovem de 16 anos à época contou a delegada que o padre costumava pegar o pênis dele e falar “pirulito”. Outro, então com 14 anos, narrou que era beijado à força pelo religioso. 
 
Ao final, nove garotos apresentaram queixa contra o pároco. Ele foi afastado de suas funções na igreja e denunciado à Justiça por estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude (quando a vítima não é vencida por violência ou ameaça, como no estupro, mas enganada). O processo correu em segredo de justiça. As vítimas contaram que foram três ou quatro vezes ao fórum para as audiências. Um ano e meio depois, em novembro de 2011, veio a condenação. O juiz da 2ª Vara Criminal de Franca condenou o padre a 60 anos de prisão.
 
Apesar da condenação pesada, Padre Dé não passou um dia preso. Por conta da sua idade e de não ter outras condenações ou passagens pela polícia, o padre conseguiu recorrer em liberdade. No Tribunal, foi absolvido de sete das nove condenações. Ainda recorreria ao Supremo Tribunal Federal.
 
Padre Dé sempre negou todas as acusações e conseguiu a simpatia de boa parte de seus fiéis. Mesmo afastado de suas funções, continuou recebendo fiéis em casa para grupos de oração e orientação. Ele nunca foi desligado da igreja católica.
 
Há cerca de um ano, descobriu um câncer de próstata e vinha fazendo os tratamentos até que, no mês passado, contraiu uma pneumonia e foi internado na Santa Casa. Depois, acometido por uma infecção urinária, acabou sendo levado à UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde morreu. 
 
O Comércio tentou contato com três rapazes do grupo que denunciou os abusos que teriam sido praticados pelo padre. Apenas um deles aceitou conversar. Ainda relutante em relembrar o passado, disse que soube da morte pela imprensa. “Levei um susto”. Ele disse que ainda não consegue perdoar o que houve. “Senti muita raiva. Desejei muito que ele sofresse. Mas hoje só quero esquecer”.
 
Sobre o fato de o religioso não cumprir pena, ele disse já esperar. “Sabia que isso iria acontecer”.
 
O Comércio também tentou ouvir parentes e amigos do padre, mas o único que aceitou dar entrevista foi o advogado José Chiachiri Neto, que acompanhou todas as acusações e defendia o religioso. “Foi um grande líder religioso. O Padre Dé era um homem franco, direto e puro. Receberá da justiça divina o tratamento devido que talvez tenha faltado no mundo dos homens”.

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