'O prefeito trouxe bandidos para esta cidade', diz ex-diretor do PS


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Ex-diretor-administrativo do Pronto-socorro e pivô das denúncias que envolveram a falsificação de fichas médicas, Ricardo Veríssimo desabafa e se diz decepcionado com o prefeito
Ex-diretor-administrativo do Pronto-socorro e pivô das denúncias que envolveram a falsificação de fichas médicas, Ricardo Veríssimo desabafa e se diz decepcionado com o prefeito
Nesta segunda-feira, deve ser protocolado na Câmara Municipal o parecer da Comissão Processante responsável pelo processo de cassação contra o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB). Nele, estará o posicionamento final da Comissão a respeito da responsabilidade e do envolvimento do prefeito nas irregularidades encontradas nos cinco contratos sucessivos assinados entre a Prefeitura de Franca e o ICV (Instituto Ciências da Vida), empresa acusada pelo Ministério Público de contratar falsos médicos e de liderar um esquema para fraudar fichas médicas nos prontos-socorros. 
 
Servidor municipal há 20 anos, Ricardo Veríssimo é um dos personagens centrais das acusações contra Alexandre. Como ex-diretor-administrativo do Pronto-socorro, Veríssimo não apenas denunciou a fraude nas fichas médicas, como entregou as provas cabais de como o esquema funcionava. O depoimento dele foi peça fundamental para que o processo de cassação de Alexandre fosse aberto. 
 
No depoimento prestado na Comissão Processante, no último dia 23 de junho, Veríssimo foi alvo da fúria do prefeito, que o acusou de ser o responsável pela fiscalização dos contratos e dos médicos do ICV, insinuou que o servidor teria denunciado por vingança, depois de ter sido exonerado de um cargo de confiança, e ainda o acusou de cometer crime ao tirar cópias das fichas médicas de pacientes do PS.
 
Passado quase um mês do depoimento, só agora Veríssimo aceitou falar. Na tarde da última quinta-feira, contou como foi a chegada do ICV e, nitidamente emocionado, se disse decepcionado com o prefeito, com quem conviveu diariamente por quase 10 anos e considerava um amigo. “Definitivamente, o prefeito não trabalha com a verdade. Eu esperava que, em algum momento, ele caísse em si e agisse como um homem, mas isso não aconteceu.”
 
Os profissionais do ICV chegaram ao pronto-socorro em junho de 2014. Quando você começou a notar que havia problemas?
Assim que chegaram. No começo, a ideia era de que eles trariam médicos para complementar a escala, porque só com os médicos concursados não estávamos conseguindo. Mas eles chegaram em apenas dois médicos: o Lavoisier (Tavares de Andrade, que mais tarde seria apontado como o mentor da fraude das fichas) e um outro que não era brasileiro. Chegaram e já tomaram conta do quarto de descanso. Não foram para um hotel ou coisa parecida. Eles moravam no PS. Para comer, iam ao bar em frente. Não tenho preconceito, mas convivo com profissionais médicos há anos. Eles têm uma postura. Costumam ser educados, se vestem bem. Os médicos do ICV não eram assim. Chegavam de todas as partes do Brasil com mochilas e se instalavam no PS. Eles evitavam contato com a gente. Eram estranhos e, claro, isso chamou a atenção. Sabíamos que havia algo muito errado, mas naquele momento não sabíamos o que era.
 
E quando os problemas mais graves apareceram?
Eu era o diretor-administrativo, responsável por organizar a escala dos médicos, mas não conseguia, porque o pessoal do ICV não me passava nada. Quando passavam, eram rascunhos rasurados com apenas o primeiro nome. Não tínhamos o controle. Eu tentava, mas eles diziam que não tinham que me dar satisfação. Só prestavam contas à Secretaria de Saúde. As enfermeiras e os outros médicos também perceberam que eles tinham problemas, não ficavam com os casos graves e prescreviam procedimentos e medicamentos de forma não usual. Eu avisei a secretária de Saúde, a coordenadora de Urgência, enviei e-mails para todos os que podia. Mas nada foi feito. Até que procurei a doutora Claudia Poubel, que era diretora-clínica. Ela disse que me ajudaria e levou o caso ao Cremesp (Conselho Regional de Medicina). Depois das denúncias, fomos todos transferidos.
 
Como descobriu a respeito das fichas falsificadas?
As enfermeiras estavam desconfiadas. Um dia, pegaram cerca de 30 fichas que haviam sido preenchidas pelo médico Lavoisier Tavares, mas tinham os carimbos dos médicos Daniel Gutierrez e Reinaldo Letrinta, que nem estavam no Pronto-socorro naquele dia. Elas procuraram o diretor-técnico e mostraram as fichas. Ele, então, me chamou e contou o que estava acontecendo. Eu fiquei preocupado. Aquilo era algo grave. Fui direto à Secretaria de Saúde, pedi para falar com a Rosane (Moscardini, então secretária) e entreguei as fichas nas mãos dela, narrando tudo o que tinha acontecido. Não pensei em protocolar nada. Também jamais imaginei que ela não fizesse nada. Ela me disse que tomaria as providências. E eu a avisei que procuraria mais fichas para servirem de prova. Naquela hora, eu esperava que ela determinasse o afastamento dos envolvidos, que abrisse uma sindicância. Mas, para minha surpresa, não foi o que aconteceu. No dia seguinte, o médico continuava trabalhando normalmente e continuava com as falsificações. Não houve sindicância nenhuma e as fichas entregues não foram devolvidas ao Pronto-socorro. Fiquei assustado e preocupado. Afinal, eu era o diretor-administrativo. Quando as servidoras entregaram novas fichas falsificadas, cerca de 60, resolvi tirar cópias antes de entregá-las para a secretária. E como todos sabem, as originais desapareceram depois de entregues. Apenas algumas foram encontradas pelo Ministério Público. 
 
Essas cópias foram feitas em 2014, mas o senhor só as entregou ao Ministério Público neste ano. Por que levou quase dois anos para entregá-las ao promotor de Justiça?
Primeiro, porque tive medo. Eu não estava à vontade para falar a outras pessoas que eu tinha a cópia dessas fichas. Eu não conheço essas pessoas que trabalharam para o ICV. O ICV não tem rosto, não tem endereço fixo. E esse pessoal que estava diretamente envolvido neste esquema estava aqui, trabalhando normalmente. Eu fiquei preocupado com a minha segurança, com a minha integridade. Me senti ameaçado. Mas os vereadores já haviam aberto a CEI (Comissão Especial de Investigação). Quando eu fui ouvido na CEI, eu tinha a esperança de que a Rosane apresentasse os originais quando fosse convocada. Quando eu soube que ela mentiu, dizendo que não recebeu as duas remessas de fichas, eu me senti na obrigação de fazer algo. Eu poderia ter encoberto tudo, ter ficado quieto, mas não conseguiria dormir. Eu sempre fui um homem íntegro, honesto, sempre sobrevivi do meu salário. Não poderia aceitar algo assim. Eu me orgulho disso. Eu me sinto em paz com a minha consciência.
 
Como vê as alegações da ex-secretaria de Saúde de que não recebeu essas fichas? E as insinuações de que você a teria chantageado para obter uma nomeação para ouvidor?
É ultrajante. Eu nunca pedi nada, nunca pedi cargo algum. O que aconteceu é que, naquela época, ela estava enfrentando sérios problemas nas Unidades Básicas e me pediu ajuda. Eu desenvolvi um projeto com algumas sugestões e me coloquei à disposição para participar. Eu não nego. Mas não que eu quisesse algum cargo. Eu já tinha o meu, que era de diretor. Não houve nada de chantagem ou pressão. Eles usaram esse projeto para confundir as pessoas. Jamais faria algo assim.
 
Outra afirmação feita é de que você teria entregue as fichas por vingança, depois de perder seu cargo comissionado.
Mais um absurdo. O fato das fichas terem sido entregues dois dias depois da minha exoneração foi mera coincidência. O que aconteceu é que a CEI havia terminado. A Rosane não tinha apresentado as fichas originais, que eu imaginava que ela fosse apresentar. Em seguida, foi aberta a Comissão Processante contra o prefeito na Câmara. Naquela mesma semana, eu já tinha decidido procurar o promotor. Tinha, inclusive, comentado com a Cláudia Poubel a respeito. Antes da minha exoneração, eu já tinha me decidido. Aí, no final da semana, não me lembro se na quinta ou na sexta-feira, a Comissão foi suspensa por uma liminar na Justiça. Eu pensei que, se entregasse as fichas logo para o Ministério Público, poderia ajudar a reverter isso, porque, até então, a fraude das fichas não tinha uma prova cabal, eram apenas depoimentos. Achei que se apresentasse as cópias, a Justiça teria a comprovação que precisava. Então procurei o promotor na segunda-feira. Quando minha exoneração foi publicada, eu já tinha entregue as fichas. 
 
Em seu depoimento na Comissão Processante, o prefeito afirmou que o responsável pela fiscalização dos contratos do ICV e da jornada dos médicos era você e que, se houve falhas, a responsabilidade é sua. 
A minha atribuição como diretor-administrativo, na época, era restrita aos servidores. Não tinha qualquer controle sobre o ICV. Quando a empresa chegou, minhas funções foram esvaziadas. Como eu posso ser o responsável por fiscalizar um contrato que sequer conheço? Eu nunca vi esse contrato. Não participei das negociações. Não é a minha assinatura que consta deles. Eu até tentei fazer algo, mas fui ignorado. O prefeito não trabalha com a verdade. Ele coloca as coisas de uma forma completamente equivocada. O que o prefeito precisa é sair do “Mundo de Bob”. Sabe aquele desenho animado que o menino vivia em uma realidade paralela? É o caso do prefeito. Ele precisa vir para o mundo dos homens e saber que ele está lidando com homens que têm dignidade. Ele fica atribuindo aos outros responsabilidades que seriam dele. Isso é muito feio. Ele precisa aprender a assumir seus erros e não ficar se escondendo atrás de desculpas absurdas. 
 
De que forma esse escândalo modificou sua vida?
O prefeito trouxe bandidos para esta cidade e não expôs somente a mim, mas outras pessoas também. Ele nos sugou para esse buraco negro sem que a gente tivesse envolvimento com isso. Aí, uma pessoa que se posiciona, que denuncia, acaba sendo a errada. O prefeito subverte a ordem normal das coisas. Eu tenho medo sim. Eu acordo todos os dias sem saber se ainda terei meu emprego. Eu me sinto perseguido. Me sinto decepcionado. Eu fiquei como diretor apenas nos dois primeiros meses dos contratos do ICV, mas agora o prefeito quer me atribuir toda a responsabilidade. E me pergunto: por que tudo isso? 
 
Qual sua opinião sobre a responsabilidade do prefeito?
O prefeito precisa assumir a responsabilidade pelas coisas que ele faz. Não fui eu que contratei o ICV. Não é a minha assinatura que está em cada um dos contratos. Não fui eu quem ignorou as denúncias envolvendo o ICV e seus profissionais esse tempo todo. Foi ele. Ele é o responsável. Não tem como se isentar disso. É a assinatura dele. São as ordens dele. Ele é o responsável por tudo. Ele sabia de tudo. Eu tentei fazer minha parte. Ele tenta me atribuir responsabilidades que não são minhas. Não tem lógica isso. Eu tenho minha consciência tranquila. Eu defendi as coisas que acreditava serem certas. Não fui conivente. 
 
E como é para você ver uma pessoa em quem confiava, com quem conviveu tantos anos e que você considerava um amigo tendo este tipo de atitude? 
Decepcionado. Ele se virou contra todos os que não concordaram com ele. Eu imaginava que eu estava em uma equipe que queria o melhor para a cidade. E vi que não é assim. Era tão simples resolver, estancar. Mas eles não fizeram nada. Eu não sei explicar o porquê. Só sei que são pessoas que me decepcionaram muito. 

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