No dia 26 de maio, a notícia de um estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro abalou o País. Porém, mais espanto ainda causaram os fatos subsequentes, principalmente envolvendo a vítima, o que provocou até a troca do delegado responsável pelo inquérito. Já em seu primeiro depoimento, a vítima, de apenas 16 anos, sofreu com a desconfiança das autoridades policiais que a atenderam e, pior, foi transformada em causadora da própria tragédia nas postagens realizadas em redes sociais como Facebook e Twitter, entre várias outras ferramentas espalhadas pela Internet. Como sempre, milhares de pessoas a culparam pelo ataque sem ao menos conhecer os detalhes do fato.
O caso e seus desdobramentos deixaram bem claras as razões de a grande maioria das vítimas não apresentar queixa aos órgãos policiais ou mesmo relatar os fatos às próprias famílias. No Brasil, uma vítima é estuprada a cada 11 minutos, segundo o FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Mesmo que a constatação seja alarmante, é comum que a vítima seja questionada ao fazer a denúncia, o que ocorre em apenas 10% dos casos. Ou seja, cerca de 90% deles nem sequer chegam a ser denunciados ou investigados. A estimativa é de que sejam mais de 527 mil casos de estupro por ano em nosso País.
A primeira denúncia, na maioria das vezes, acontece em relatos para a família. No entanto, nem nesse meio a mulher pode se sentir totalmente segura. De acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou conhecidos. Mesmo entre entes queridos, o descrédito também é recorrente e a violência é acrescida pela dor da dúvida ou pela substituição do papel de vítima pelo de mulher sedutora. Por isso a maioria dos casos não chega nem à Delegacia da Mulher.
Machismo, vergonha e falta de profissionais capacitados para atender a mulher vítima de estupro se juntam à impunidade para permitir que a violência sexual contra a mulher sejam subnotificada. No caso da impunidade, embora a legislação tenha tornado mais grave a pena para o crime de estupro, a legislação brasileira não consegue reter criminosos sexuais atrás das grades. A maioria das penas não passa de dez anos (só em casos de grande repercussão a sentença é maior) e muitos destes molestadores deixam a cadeia em até três anos. A maioria deles volta às ruas e retomam a prática, ameaçando crianças, adolescentes e mulheres. Enquanto o Brasil não souber tratar as vítimas de estupro, dificilmente conseguiremos reduzir o registro dos casos, o que passa em capacitação de todos os profissionais (médicos e policiais) envolvidos.
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