Necrológios


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Assinar os necrológios quase diários deste Comércio tem sido exercício de alegria e de tristeza. Cotidianamente tenho conversado com famílias que perdem ente querido, e o faço nos piores momentos, ao ligar quando estão em agências funerárias, ou à beira do caixão, antes do sepultamento. Não escolhemos nomes por serem de ‘grandes’, ou de ‘pequenos’. Respeitáveis industriais, políticos, patriarcas e matriarcas de famílias tradicionais, e personagens muito conhecidos têm, exatamente, o mesmo peso de gente humilde de todas as classes sociais. São, para nós, e sem exceção, cidadãos iguais em importância, construtores ideais da mesma cidade na qual convivemos. 
 
Os 47 anos de jornalismo que, orgulhosamente, comemorarei entre outubro e novembro deste ano, me tornaram um frio contador de histórias. ‘O primeiro dever de um jornalista é manter equidistância do fato e dos personagens de uma história. Sem isso, em meados dos anos 60, dizia-me Alfredo Henrique Costa,proprietário e diretor deste Comércio, ‘nada do que se publica como informação, tem valor’. 
 
Quando, início da década passada, instigado por Sônia Machiavelli, editora do caderno ‘Nossas Letras’ — ‘os maiores jornais do mundo publicam necrológios como repositórios de histórias de vida, e essas sessões são das mais lidas’ — topei o desafio, tinha isso em mente. Lançava mão de minha rede de relacionamentos, ouvia familiares, amigos, inimigos, e sentava para escrever. Simples, direto. De quando em quando, um texto. Resultados, os prenunciados por Sônia: muitos comentários enviados a ‘Cartas’, cumprimentavam o jornal. Este ano, por sugestão da editora-chefe do Comércio, Joelma Ospedal, passei a escrever necrológios quase diários. Pensei em só ampliar o ‘desenho’, mas que nada...
 
Personagens muito conhecidas têm suas histórias controladas por suas famílias. Há sobre o que falam, e há sobre os que não falam. Com gente simples, não. Há uma troca intensa de emoções. A primeira, de surpresa: ‘puxa, mas a gente é muito simples!’. A segunda, de alegria: ‘estamos felizes em saber que o Comércio nos procura para contar sobre a gente’. Outra, a de confiança: não há nada que não se possa contar. Em jornalismo, aprende-se, todos os dias. 
 
Há histórias grandiosas no seio de famílias de todas as classes. Quando se estabelece empatia, não há sobre o que não se possa falar. Não raras vezes, tenho desabado. A família chora seu ente, o jornalista se emociona com a dor, a alegria, o respeito, o sentimento de perda que une e iguala grandes e pequenos, na mesma medida. 
 
DONA PERCÍLIA MACHADO: Conversei duas vezes esta semana, com dona Percília Machado, matriarca de família que restou viúva de José Machado, soldador que trabalhou na construção de quase todas as hidrelétricas que nos cercam. Na primeira, deu lições de como reagir à perda de ente querido: foco nas boas lembranças e esperança em Deus, para futuro reencontro. A segunda, quando ligou para agradecer necrológio que publicamos para contar de seu marido. ‘Meu filho, você construiu um texto lindo, parecia alguém da família falando’. Nada disso, d. Percília. O que passei ao papel, foi o que a senhora, suas filhas e neto me contaram. Não há nada meu lá, exceção ao compromisso de contar o que ‘seu’ José fez, para ser tão amado e respeitado como foi. A quase alegrai de dona Percília é a melhor das pagas...
 
DONA MARIA PRACUCH: Outra surpresa agradável, esta semana, foi ouvir dona Maria, viúva de Zdenek Pracuch - a quem homenageei aqui, no tempo pré-Francal. Ligou de Itajubá para agradecer o que considerou referência elogiosa ao marido, mesmo depois de três anos de sua morte. Agradeço-lhe. Pracuch se eternizou pelo que ensinou a incontáveis indústrias de calçados pelo mundo. Foi só reconhecimento, dona Maria.
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 
 

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