Conhecido por seu trabalho de pesquisa em novos materiais têxteis, tecnologias e técnicas de criação no mundo da moda, o estilista paulista Walter Rodrigues, consultor da Assintecal (Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos), prospecta uma reorganização de cores nos sapatos que vão vestir os pés dos brasileiros.
Rodrigues fez carreira no mundo fashion criando vestidos exclusivos e comercializando disputadas coleções em lojas multimarcas, além de ter no currículo passagens pela Fashion Rio, São Paulo Fashion Week e semana de moda de Paris.
Presença sempre esperada nos fóruns da Francal, Rodrigues, com sua experiência em moda e estilo, auxilia lojistas, fabricantes, representantes comerciais, designers e outros profissionais do setor a se orientarem sobre o que poderá se tornar tendência em calçados e acessórios.
Em bate-papo com o Comércio da Franca, o estilista contou o que os diferentes tipos de consumidores vão querer ver nas vitrines e analisou de que forma as turbulências econômicas interferem na moda. Confira.
O que a gente pode chamar de tendências ou inspirações para o Verão 2016/2017, que é o foco da 48ª Francal, e de que forma esses caminhos são definidos?
No projeto do Fórum Francal estabelecemos uma linguagem muito importante em três escalas. Em uma, que estamos chamando de consumidor autoral e que classificamos para os varejistas como a vitrine, nós propomos que eles tenham peças minimalistas, simplificadas, valorizando cores como preto, branco e vermelho. Seriam sapatos feitos inteiramente nessas cores. Tênis brancos serão extremamente importantes. As estruturas estarão mais firmes, rígidas, sólidas, bem estruturadas. No momento em que a gente atenta para apostas - o que chamamos de consumidor multiplicador, aquele que faz a base de mercado se expandir - a gente está trabalhando bastante a questão do jeans denim nos sapatos e também a questão das tramas que são extremamente importantes: são tramados, cordas e bastantes detalhes de perfurados, de laser e couros vazados. Na base da pirâmide está o consumidor instantâneo. Aqui a gente fala de muita cor e muito brilho. É um colorido em geral. (Para citar um exemplo) no Brasil, pink é uma cor que dá muito certo tanto no mercado feminino como infantil.
Você falou sobre a o tênis branco, que é algo que já estamos vendo nos pés dos brasileiros. Ele realmente aparecerá ainda com mais força?
A questão do tênis branco é uma reação aos tênis esportivos coloridos que a gente vê tanto no mercado. Então, é natural que haja uma reação, as pessoas (a classe do consumidor autoral) não querem ficar iguais as outras.
É plausível dizer que a crise, de certa forma, dita inspirações? Materiais alternativos, com preços menores, são priorizados?
Influência, porque todo produto é afetado por essa questão da crise. Não sei podemos dizer que estabelecemos materiais alternativos, porque na questão do calçado somos bem estabelecidos já. Já é sabido que o sapato de couro tem um valor muito maior por causa da matéria-prima. Temos os calçados em couros sintéticos que são extremamente bem desenvolvidos e há um mercado muito sólido para eles. Mas o dado que é muito importante e que estamos notando há bastante tempo é a grande profusão de tecidos. Temos hoje uma quantidade gigantesca de tecidos e isso torna o sapato mais acessível.
Em relação ao estilo de calçado, o que podemos esperar nas vitrines?
Cada vez mais, temos que entender que o consumido é quem manda, e trabalhar em cima do público para o qual se vende. Teremos opções para todo mundo. Sapatilhas são extremamente confortáveis para o Brasil e permanecerão dentro do padrão delas. Temos a questão interessante da “não estação”. Por exemplo: ainda teremos muitas botas, especialmente as curtas, já que a brasileira adora bota e a usa no verão também. Também é muito interessante a forma com que o calçado esportivo avança para dentro do cotidiano, se tornando também um item de moda. Temos as rasteirinhas, que são fortes no Verão e estarão em evidência mais para o final do ano, muito embora o Brasil seja tão gigantesco que há regiões, como Norte e Nordeste, onde elas ficam em evidência o ano inteiro.
Quais são os tipos de calçados que conseguiram se estabilizar no Brasil, independente de modismos ou oscilações econômicas?
Crise é bom por isso. Conseguimos perceber claramente quais são as fórmulas muito bem estabelecidas. Por exemplo, os anabelados, de plataforma, meias-patas mais altos na frente são seguramente sapatos que vão ter em todos os lugares. A brasileira usa muito. Ela gosta de salto, gosta do conforto, e as marcas estão apostando nisso.
E no masculino, o que se destacará?
Acredito que estamos vivendo um momento de liberdade nos masculinos, onde cores estão sendo absolutas usadas nos calçados. Já vemos a importância dos azuis, dos vinhos e dos vermelhos, mas isso em sapatos de couro. O calçado esportivo ainda está muito colorido, mas o consumidor um pouco mais antenado, um pouco mais autoral (como citado anteriormente), vai escolher o tênis branco ou o tênis preto. Até as chuteiras estarão pretas. Estamos perdendo aquela coisa das chuteiras douradas, rosas, elas estão voltando a ficar clássicas também. E isso não tem a ver com um endurecimento da economia e, sim, com o excesso de cores no mercado. Não é um reflexo de crise essa reorganização e simplificação das cores no preto e no branco, é muito mais uma ação contrária ao excesso de colorido.
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