Em março do ano que vem, ele completa 20 anos de serviços prestados à Polícia Militar do Estado de São Paulo. Aos 39 anos, o capitão Jean Gustavo Cintra acaba de assumir o comando de uma das maiores companhias de polícia do interior paulista. Desde o último dia 24 de maio, ele responde oficialmente pela 5ª Companhia do 15º Batalhão da Polícia Militar do Interior. São mais de 100 homens sob seu comando e uma área de atuação que abrange as regiões Norte e Oeste de Franca e os municípios de Cristais Paulista, Pedregulho (e seus distritos) e Rifaina.
Jean começou sua carreira em Franca. Ingressou na Polícia Militar em 1997 e começou a atuar como soldado no ano seguinte. Depois foi aprovado para a Academia Barro Branco, de formação de oficiais. Se mudou para São Paulo e trabalhou por mais de seis anos em uma das regiões mais violentas da capital, a Zona Leste. “Vivi muitas situações. Foi uma experiência e tanto. Lá, na época, era a região com maior índice de homicídios”.
O capitão voltou a Franca no final de 2005. Assumiu o comando do Pelotão de Guará, depois foi oficial responsável pelos Recursos Humanos e Comunicação da PM. E de 2007 a 2012, dirigiu as ações da Força Tática.
Na 5ª Companhia, foi designado subcomandante em fevereiro do ano passado. Em setembro, com a aposentadoria do capitão Waltercir da Silva Marques, assumiu o comando interinamente. Com sua promoção a capitão no último dia 24, foi efetivado no cargo.
Na entrevista, Jean contou um pouco de sua experiência como policial e dos desafios que tem pela frente no combate à criminalidade. Em sua sala, com o rádio de comunicação ligado e tabelas e mapas de acompanhamento do trabalho dos policiais nas ruas, também falou sobre os projetos para aproximar os policiais das comunidades.
No ano que vem, o senhor completa 20 anos de carreira na Polícia Militar, como começou essa história?
Desde pequeno, sempre gostei de artes marciais e de coisas ligadas ao militarismo. Era daqueles que se emocionavam em cerimônias oficiais. Mas o ingresso na Polícia aconteceu meio por acaso. Eu tinha feito um curso técnico de mecânica, mas não gostei. Estava insatisfeito. Foi, então, que um amigo que hoje trabalha aqui comigo, o sargento Gonçalves, me chamou para prestar o concurso da Polícia. Topei. Acabei sendo aprovado. Sou o primeiro policial militar da família. Depois, meu irmão Luciano (Henrique Cintra), que na época fazia Faculdade de Direito, também acabou seguindo uma carreira policial. Hoje ele é delegado na Delegacia Seccional. Quando conheci a Polícia me encantei. Adoro o meu trabalho e tenho muito orgulho de fazer parte desta corporação.
Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública relativos ao primeiro trimestre de 2016, a região da 5ª Companhia concentra a maior parte das ocorrências policiais da cidade. Como o senhor analisa esses números?
São um desafio e uma grande preocupação. Na polícia, hoje, trabalhamos muito em cima das estatísticas. Elas são importantes indicadores da letalidade (ocorrências que resultam em morte). Acompanhamos de perto os registros de roubos e furtos. Você citou os números do trimestre. Aqui estamos com os registros atualizados do semestre. Nestes primeiros seis meses, houve uma redução nos registros de roubos na região da 5ª Companhia de 197 para 177. Nossa preocupação tem sido com os furtos de veículos que cresceram de 175 para 201. Já identificamos a ação de uma quadrilha especializada em “sequestro” de caminhonetes. Eles furtam o veículo e depois ligam para os donos pedindo resgate. Também tivemos registro de uma outra quadrilha que estaria furtando veículos mais antigos para desmanches. Conseguimos, em parceria com a Polícia Civil, prender alguns receptadores que subsidiaram as investigações da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) e do 2º Distrito Policial. Com isso, já começamos a registrar uma redução das ocorrências.
E a que fatores o senhor atribui o alto número de ocorrências?
No começo deste ano, tivemos alguns picos por conta da ação de bandidos que praticaram roubos em série em postos de combustíveis e a transeuntes. Muitas dessas ocorrências estão ligadas ao tráfico de drogas. São bandidos que têm dívidas com traficantes e, para não perderem a vida, acabam cometendo crimes sem qualquer planejamento e, muitas vezes, em locais próximos. Outro fator que não podemos deixar de citar são os problemas sociais enfrentados não só por Franca mas por todo país. Hoje vivemos uma quebra de valores. As pessoas não ligam mais para a religião ou para a própria vida. Nos últimos anos, Franca também cresceu muito. Muita gente acabou se mudando para a cidade, o que atraiu também criminosos. O fato de o município também ter um CDP (Centro de Detenção Provisória) influencia. Muitos bandidos acabam ficando aqui na cidade. A criminalidade é resultado de um conjunto de fatores.
Recentemente, o senhor comandou uma operação na Feira do Rolo, que vira e mexe é alvo da Polícia, mas sempre continua existindo. Por que isso acontece? E se realmente aquele é um ponto de comercialização de produtos de furto e roubo, por que continua funcionando há décadas?
Primeiro é preciso deixar claro que não é função da Polícia Militar fiscalizar a existência e o trabalho de ambulantes. Essa responsabilidade cabe a outros órgãos do Poder Executivo. O que fazemos na Feira é atuar no combate à comercialização de produtos furtados, roubados ou de origem ilícita. Agimos naquele local porque houve denúncias de que ali estariam sendo vendidos produtos furtados, o que acabou sendo comprovado mais tarde. Agora não é nossa obrigação, como Polícia Militar, fechar a feira. Esse é um papel do Executivo Municipal. Nós agiremos atuando sempre que houver denúncia. Não apenas na Feira do Rolo, mas em qualquer outra parte da cidade.
Nós falamos sobre o avanço da criminalidade. O que tem sido feito pela Polícia Militar para combater esse aumento ?
Nos reunimos recentemente com o comando em Ribeirão Preto e traçamos uma estratégia baseada em cinco eixos. O primeiro é aproximar os policiais da comunidade onde atuam. A ideia é que com isso eles consigam identificar melhor os problemas de cada localidade, tenham mais conhecimento sobre a realidade do local e possam nos informar a melhor maneira de agir. Em Franca, estamos bastante avançados neste sentido, porque muitos policiais do efetivo moram na cidade e são conhecidos em suas comunidades. Também temos que agir com maior transparência, divulgando nossas ações, prestando conta à população, porque isso gera confiança. Nossa prioridade também é colocar o maior número possível de policiais na rua, no policiamento ostensivo. Ainda queremos fortalecer as parcerias com outras esferas sejam elas municipais, estaduais ou federal. É importante agirmos em conjunto, de forma coordenada. E, por fim, temos que trabalhar pela excelência, nos dedicar ao máximo àquilo que fazemos e dar nosso melhor. Acredito que se conseguirmos avançar nestes pontos, vamos ter uma cidade mais segura para todos. Neste ano, começamos a realizar audiências públicas com prestação de contas à população. Nestas ocasiões, as pessoas podem participar e tirar suas dúvidas ou fazer suas reclamações. Tem sido um canal importante para a Polícia. Um exemplo dos resultados é a criação de grupos em aplicativos de celular que aproximam os policiais da população. A ronda escolar, hoje em dia, tem contato direto com os diretores de escola. O mesmo vale para a área rural, em que os moradores também contam com este recurso.
Uma das queixas feitas pela população da região é a falta de efetivo policial. O que o senhor pensa a respeito? Há previsão de chegada de novos policiais?
Não posso comentar a respeito. O que posso afirmar é que estamos nos empenhando ao máximo para atender aos padrões internacionais de segurança. Temos também, aqui na cidade, uma escola de formação, o que é muito importante para a renovação do efetivo da polícia. Também cobramos índices de produtividade de forma individual para que os policiais assumam a responsabilidade sobre o trabalho da polícia.
Quais os maiores desafios da polícia militar no combate ao crime hoje em Franca?
Atualmente, um dos nossos maiores desafios é fazer o enfrentamento nas madrugadas de ocorrências de furtos e roubos a agências bancárias, principalmente, em cidades menores. Nos reunimos com o comando para montar um plano de ação para combater essas quadrilhas especializadas e com armamento pesado. Recentemente, tivemos registro de roubos em Guará e Ituverava. Na região da 5ª Companhia, estamos já planejando como agiremos. Outro desafio é conter o aumento do furto de motocicletas. Temos registrado um aumento neste tipo de crime. Como no caso de veículos mais antigos, os bandidos agora também estão furtando motos para desmanche e revenda de peças. Temos ações já programadas para combater a ação destes criminosos. E por fim, também, queremos melhorar sempre a qualidade do serviço prestado à população com reuniões mensais e o acompanhamento das estatísticas.
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