Tempo de feira de calçado lembra-me Zdenek Pracuch, o consultor tcheco que Wilson Mello trouxe a Franca para implantar, na Samello, a segunda esteira de produção calçadista do país. Veio e fez do Brasil, sua casa. Tornou-se um dos mais respeitados gurus da modernização de indústrias calçadistas neste país e no mundo.
Pracuch era desses poucos homens que dominavam, integralmente, conhecimentos capazes de consolidar produtos e marcas, ou de impedir naufrágios de empresas de grande porte ou de fundo de quintal, mas humilde, se apresentava como sapateiro. Racional, lógico e frio o suficiente para não permitir-se perder tempo com conversas inúteis, fez amigos e inimigos na mesma medida. Suas previsões lhe renderam elogios sinceros, mas também, adjetivos e aforismos que tentavam desestabilizá-lo, sempre sem sucesso: ‘catastrofista’, ‘ave de mau agouro’.
Tive a honra de editar boa parte dos textos que ele produziu para este Comércio, peças raras de constatações lúcidas, e prenúncios de cenários que raramente falhavam. Concedeu-me também sua amizade. Estivemos próximos até o fim de sua vida — 20 de junho de 2013, quando foi vencido por câncer para o qual não deu a mínima bola, e nem queria se tratar . Trocamos livros, falamos da vida, de nossas famílias, do sofrimento que ensina. Também, de cinema. Irredutível, não assistia filmes que tivessem livros como base, para não perder o encanto dos cenários mentais que da leitura deles, tinha construído; mas veria Fernão Capelo Gaivota para me agradar. Não houve tempo. Foi-se ‘invicto’ com aquele seu sorriso quase irônico que oferecia a amigos e ‘não amigos’ na mesma medida. Sobre isso, tenho certeza, foi-se gargalhando.
Um mês antes de morrer, contatou-me. “Escrever me é lazer e exercício de responsabilidade, além de ajudar também neste tratamento que, mesmo sem eu querer, me aconselham a fazer. Se você permitir, permaneço escrevendo’. Produziu mais três textos. O último publicamos na semana anterior à sua morte. Evitava tecer comentários aprofundados sobre feiras. De quando em quando, poucas linhas. Com mais profundidade, só em 2008, antes da Francal do ano. Percebam a modernidade de suas considerações:
NA EUFORIA GERAL: ‘(...) como um todo, feiras perderam, na maioria, a finalidade comercial. Hoje funcionam mais como eventos de relacionamento, fixação de marcas e, de vez em quando, como ocasião de lançamento de novidade revolucionária, quando existe. A quem culpar? Há explicações, desde o giro mais rápido de tendências de moda, de gostos globalizados divulgados na velocidade da luz, que não permitem grande antecipação de compras; de longa espera pela entrega de pedidos, até a crescente influência da comunicação pela Internet.
Para que gastar tempo e dinheiro (...) se, em casa, com toda comodidade e tranquilidade, navegando pela Internet, tenho tudo o que o mundo pode oferecer em matéria de moda e novidades? O único esforço é dar um click para ver o mesmo que visitantes que voaram horas para ter. Se visita à feira é sinônimo de encontro com amigos, nada a objetar. Se é pretexto para escapar à vigilância doméstica e voltar aos tempos de juventude com noitadas saindo do sério, é problema de cada um.
Há (trinta) anos uma feira garantia a produção de semestre. Hoje, dificilmente garante produção para uma quinzena e as razões são múltiplas: medo de arriscar em compras de novidades, descapitalização do comércio varejista, prazos de entrega excessivos, reposição demorada dos artigos vendidos. Como em tudo na vida empresarial, o que conta são resultados. Números frios. Custo/benefício. Não tenho nada contra feiras. A única questão é saber se expositores estão em condições de bancar a própria vaidade ou sangrarem o capital de giro, escasso, difícil de criar e conservar.’ Mudou?
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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