Depoimentos são marcados por absurdos, ataques e revelação


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Silson Ribeiro ouve pergunta feita pelo denunciado na CP, o prefeito Alexandre Ferreira
Silson Ribeiro ouve pergunta feita pelo denunciado na CP, o prefeito Alexandre Ferreira
No primeiro dia de depoimentos da CP (Comissão Processante) aberta pela Câmara para analisar os pedidos de cassação do prefeito Alexandre Ferreira (PSDB), a estratégia adotada pela defesa foi o ataque. Com a conivência do presidente da CP, o vereador Daniel Radaeli (PMDB), mesmo na condição de denunciado, o prefeito pôde fazer perguntas às testemunhas, usar o microfone para disparar ironias e acusações e tecer comentários sobre o que era respondido. Não foram raras as vezes em que Alexandre sequer permitia às testemunhas responderem sem interferências. Os bate-bocas entre a defesa e a acusação permearam todos os nove depoimentos realizados na quarta-feira.
 
Sobre as acusações de infrações político-administrativas que pesam contra o prefeito, muito pouco foi dito. Os questionamentos da defesa centraram em tentar desqualificar os denunciantes e ligar a apresentação das denúncias a supostas brigas políticas ou vinganças.
 
O primeiro
Os depoimentos começaram às 8h20. O primeiro a falar foi o blogueiro e jornalista Marcelo Bomba, um dos três denunciantes. Além dele falaram Paulo Dimas (servidor) e Silson Ribeiro (pai de vítima da saúde).  A presença de Alexandre não era esperada. Mas ele compareceu acompanhado de assessores e dois advogados. Já durante o depoimento de Marcelo, o presidente da CP permitiu que o próprio Alexandre Ferreira formulasse perguntas diretamente ao denunciante. Não demorou para que o clima esquentasse. Durante seus questionamentos, Alexande chegou a perguntar se o jornalista seria um “mentiroso contumaz” e afirmou que Bomba teve as verbas de publicidade que recebia da Santa Casa de Franca cortadas e, por isso, teria feito as denúncias. O jornalista negou. “Apresentei as denúncias de livre e espontânea vontade. Não teve nada a ver com o contrato que tinha com a Santa Casa.”
 
O prefeito também insinuou que o blogueiro não seria o autor verdadeiro da denúncia. “Ele (Bomba) não sabe o que escreveu. Não está sabendo nem do que estamos sendo acusados”, disse Alexandre. Bomba rebateu: “Eu mesmo elaborei a denúncia com base no relatório. Posso até não saber escrever, mas tem gente que não sabe governar”.  O bate-boca só foi contido com a interferência de Radaeli. 
 
O jardineiro
O segundo depoimento começou perto das 10 horas com a oitiva do jardineiro e servidor municipal Paulo Dimas. O prefeito insistiu em perguntas técnicas em relação à licitação ou ao contrato de prestação de serviços. Em todas as perguntas e respostas, ele aproveitava a oportunidade para fazer comentários muitas vezes depreciativos à testemunha e ainda tentou ordenar as resposta. “O senhor tem que responder sim ou não”. Alexandre ainda deu ordens ao presidente da CP, Daniel Radaeli. “Senhor presidente, diz para ele que não é do jeito que ele respondeu. Diz para ele.” A advogada Solange Secchi, que acompanhou Bomba, teve de intervir para pedir respeito por parte do prefeito à testemunha.
 
Mais uma vez, houve alteração de ânimos. Ao questionar os termos usados pelo servidor Paulo Dimas em sua denúncia - que deu origem à Comissão Processante -, o prefeito afirmou: “O senhor é jardineiro, mas não escreve como um. O senhor diz não ter conhecimento jurídico, mas sua denúncia tem vários termos jurídicos.” E a resposta, Paulo Dimas disse: “Posso parecer idiota, mas tenho uma filha que fez faculdade e, como eu já disse, ela me ajudou”.
 
Depois de um desentendimento entre o prefeito e o servidor, a respeito dos termos usados na denúncia, Márcio do Flórida, que é relator da CP, interveio em favor de Dimas. Foi o que bastou para mais um desentendimento. “Desnecessário o senhor vereador atuar como juiz, promotor e advogado de defesa da testemunha”, disse o prefeito. Em meio a protesto de Márcio, Radaeli decidiu encerrar o depoimento.
 
Desabafo
Por volta das 10h40, foi a vez de Silson Ribeiro, o terceiro denunciante, ser ouvido. Ele se emocionou logo no início de seu depoimento e chorou ao lembrar a morte da sua filha, em janeiro de 2014. “Fico indignado de ver o prefeito levando isso aqui na brincadeira. Estou perplexo de ver a cara dele rindo. Só eu sei o que é perder um filho como eu perdi. Se ele tivesse perdido um filho, tenho certeza de que ele não estaria rindo”, disse. 
 
Marcelo Bomba reclamou das intervenções e comentários do prefeito sobre as respostas do Silson Ribeiro. Mais um bate-boca. O prefeito pediu para que o Bomba fosse retirado do plenário. “Esse moço só tumultua a sessão. Tem que tirar esse moço daqui”, disse o prefeito. O bate boca só acabou depois que Radaeli ameaçou suspender a audiência.
 
Intimidação
Outro depoimento tomado foi do médico Vínio Oliveira. Durante seu depoimento, as interrupções do prefeito foram constantes. Em vários momentos, ele aproveitou o uso do microfone para se defender. Em outros, ele mesmo perguntava e respondia ou tentava induzir a resposta do médico, tentando controlar o andamento da audiência. 
 
Irritado com a situação, Vinio disse aos membros da CP que estava se sentindo intimidado e que não iria responder aos questionamentos do prefeito. Durante o depoimento, Alexandre chegou a perguntar sobre o último relacionamento amoroso do médico. A pergunta foi indeferida por Radaeli. 
 
Curto
A secretária de Finanças, Neide Lopes também prestou depoimento no fim da manhã de ontem. Ela negou todas as irregularidades apontadas e disse que a escolha do ICV foi feita de forma legal.
 
Mais confusão
Depois de um intervalo para o almoço, os depoimentos foram retomados às 15 horas. A primeira a depor foi a médica Claudia Poubel, ex-diretora clínica do pronto-socorro e uma das primeiras a denunciar as irregularidades envolvendo o ICV. Alexandre novamente apareceu acompanhado de seus advogados. 
 
O delegado e vereador Radaeli iniciou avisando que esperava uma postura diferente e que iria indeferir perguntas que não fossem diretamente ligadas às infrações investigadas. 
 
Na retomada dos depoimentos, Radaeli adotou um posicionamento mais firme, não permitindo interferências e perguntas não pertinentes e chamou a atenção do prefeito, que afirmou que as testemunhas que prestaram depoimento estariam mentindo. “Não admitiremos esse tipo de ofensa”, disse Radaeli. 
 
Mesmo com a advertência de Radaeli, Alexandre continuou com postura irônica e com risadas ao fazer questionamentos à médica. Depois de perguntas de cunho pessoal a respeito do seu desempenho como diretora, Cláudia se irritou com o prefeito. “Não vou mais responder a este tipo de questionamento “, disse. 
 
Alexandre insistiu. “Assim não dá. Eu faço a pergunta e ela não responde. Isso é cerceamento de defesa”.  Márcio do Flórida focou os questionamentos nos alertas que a médica teria feito à Secretaria Municipal de Saúde e também no caso das fichas falsificadas e, em seguida, foi encerrado o depoimento. 
 
Revelação
Logo após Cláudia, foi a vez de Ulysses Minicucci, que é conselheiro do Cremesp em Franca, depor. Durante seu depoimento, o conselheiro do Cremesp fez uma importante revelação. Ulysses afirmou que o órgão informou a Prefeitura de Franca em outubro de 2014 a respeito da existência de um falso médico trabalhando como contratado pelo ICV na prefeitura. O caso dos falsos médicos só veio a público em julho de 2015.
 
Segundo ele, houve a abertura de uma sindicância para apurar a morte suspeita de uma mulher e, ao convocarem o médico que constava na ficha, descobriram que ele nunca tinha estado em Franca. O relator Márcio pediu uma copia do ofício que informou a Prefeitura e o depoimento foi encerrado.
 
Ex-diretor
Por volta das 17 horas, começou o depoimento de Ricardo Veríssimo, ex-diretor administrativo do pronto-socorro. Ele voltou a afirmar que entregou as fichas falsificadas a Rosane Moscardini, então secretária de Saúde, e que não revelou a existência delas por uma questão de segurança. “Trouxeram bandidos a esta cidade. Me sentia ameaçado e me sinto ameaçado até hoje”, disse. 
 
Mantendo o ataque, Alexandre insinuou que Veríssimo teria tirado cópias das fichas falsificadas para conseguir benefícios como cargos na prefeitura. Ricardo respondeu que não. “Acho ultrajante esse tipo de insinuação. Nunca pedi cargo nenhum a ele (Alexandre), nem quando ele era secretário de Saúde nem quando ele foi eleito prefeito. Não seria agora”.
 
Ensaiada
A ex-secretária Rosane Moscardini foi a última a ser ouvida na Comissão Processante. Ela voltou a repetir as afirmações já feitas durante a CEI (Comissão Especial de Inquérito), cujo relatório serviu de base para o processo de cassaçao. Moscardini defendeu o prefeito Alexandre Ferreira, disse que em nenhum momento ele interveio em favor do ICV e que não recebeu nenhuma ficha falsificada. Ela afirmou que entendeu que Ricardo Veríssimo estava atrás de um novo cargo quando guardou as cópias das fichas. 
 
Diferente de suas outras participações na CEI, Rosane se mostrou segura com a defesa do prefeito, respondendo rapidamente e sem pensar, parecendo estar ensaiada. 
 
Rosane disse que só tomou conhecimento das fichas falsificadas em novembro do ano passado quando uma funcionária da Secretaria foi questionada pelo promotor público. “Ele (o Ricardo Verissimo) estava com essas cópias das fichas há quase dois anos, mas só foi admitir ao prefeito em novembro de 2015. Isso é coisa de gente que tem algum problema mental, que quer tirar alguma vantagem”, disse. 
 
Ela na negou que tenha recebido qualquer comunicado por parte do Cremesp a respeito da existência de falsos médicos e também afirmou que nunca foi alertada por médicos do PS sobre o assunto.

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