A sociedade contemporânea parece desconstruir a morte, ou banalizá-la. Pela morte, abriam-se incertezas.
Para alguns ainda abre o medo do ‘inferno’, mas, o inferno é aqui mesmo. Falo da morte real e em sentido metafórico.
Morremos a cada dia que vivemos, e dela nos aproximamos irreversivelmente. Não somos imunes.
Vivemos em sociedade, mantemos e desfazemos relacionamentos pessoais ou profissionais todos os dias.
Dos relacionamentos atuais, muitos são paraísos; outros, infernos. A morte é dual, contrasta com a vida. O escritor de Medo Liquido, Zygmunt Bauman, diz que o que é saudado por um dos lados como ato bem-vindo de libertação, é percebido e vivenciado pelo outro como ato abominável de rejeição e/ou exclusão, ato de crueldade, punição imerecida ou, no mínimo, prova de insensibilidade’.
Para ele, três são as estratégias para conviver com a iminência da morte, embora não reconheça a eficácia que qualquer delas.
A primeira, consiste em criar ponte entre a vida mortal e a eternidade. Morte é novo começo. A segunda, despreocupar-se dela por ser evento universal e inescapável. A terceira é considerá-la como evento banal, revogável e reversível.
Uma vez que se estabelece quaisquer desses significantes, pode-se destacar, deles, vários significados.
O impeachment da presidente Dilma foi a morte para ela (inferno), mas para muitos, foi um paraíso.
A Operação Lava-Jato provoca o mesmo sentimento, mas gera também o de morte de instituições e de seus integrantes.
Delações premiadas nos matam a cada revelação; por outro lado, mata também os até então intocáveis que não resistiram à tentação da corrupção.
Espero que não sirva de instrumento a ninguém para manipular o povo.
O medo da morte, para Bauman, ‘é insumo natural que pode potencializar recursos infinitos e renovação total’.
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário na Unfran/Cruzeiro do Sul
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