Os fatos narrados em um relatório assinado pela equipe de enfermagem do Pronto-socorro Infantil, e entregue ao prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) em agosto do ano passado, chocam. No documento de quatro folhas, são expostas graves falhas no atendimento que colocaram em risco a saúde das crianças que foram atendidas por médicos contratados pelo ICV (Instituto Ciências da Vida), empresa investigada por fraude e contratação de falsos médicos.
O documento faz parte de uma auditoria aberta pela Prefeitura. Apesar da gravidade dos fatos narrados, o prefeito Alexandre Ferreira decidiu manter o contrato com o ICV por mais um mês. E mesmo depois de encerrado o contrato, ainda permitiu que os mesmos médicos continuassem trabalhando para o município como terceirizados. O relatório foi anexado ao processo judicial movido pelo Ministério Público contra o ICV, seus médicos e a Prefeitura de Franca.
Segundo o corpo de enfermagem, desde que o ICV assumiu o atendimento no PSI houve uma queda acentuada da qualidade do serviço prestado. “A insegurança, o despreparo, o descompromisso, o desconhecimento de rotinas e demandas e a inexperiência profissional deste pessoal ficou patente desde o início”, escreveram.
Ainda de acordo com o relatório, eram inúmeros os casos de retornos quase imediatos de pacientes. “Casos que poderiam ser resolvidos em apenas uma consulta, mas que, por imprecisão e inobservância dos médicos terceirizados, acabavam retornando ao PS várias vezes”.
As enfermeiras narram que já na primeira semana de trabalho dos médicos do ICV começaram os problemas. “Começaram a aparecer casos de fraturas ósseas evidentes (com óbvios desvios anatômicos, além de raio-X confirmatório) cujos pacientes eram liberados para casa”, expuseram no documento. Nas receitas médicas, o absurdo se repetia. “Casos de agravamento da moléstia devido à imprecisão das hipóteses diagnósticas. Hiperdosagem ou subdosagens berrantes nas prescrições. Antibióticos com superdosagem, antiinflamatórios, até mesmo para um adulto”.
O corpo de enfermagem ainda alertou o prefeito para o fato de alguns médicos terceirizados estarem “empurrando” o fechamento de diagnósticos para médicos concursados. “Para isso, eles solicitavam exames desnecessários ou que já haviam sido feitos.”
No documento, ainda denunciam o uso de anabolizantes pelos médicos terceirizados com seringas do próprio Pronto-socorro Infantil. “Seringas com agulhas acopladas foram encontradas no lixo do banheiro masculino, provavelmente utilizadas pelos médicos terceirizados consumidores assumidos de anabolizantes esteróides”. Outras seringas carregadas também foram encontradas nas geladeiras do PS.
Por fim, afirmam ainda que os médicos atuavam no Pronto-socorro Infantil e Adulto ao mesmo tempo. “Parecem fazer um número de consultas em um setor e correm para o outro para cobrirem a escala”.
O relatório foi entregue ao prefeito no início do mês de agosto de 2015. À época, já havia sido descoberta a existência de falsos médicos atuando nos dois prontos-socorros da cidade. Mas, mesmo ciente dos graves problemas, Alexandre Ferreira ainda defendia a permanência do Instituto e só não renovou o contrato um mês depois por conta de uma ação judicial aberta pelo Ministério Público que bloqueou os pagamentos ao instituto.
Mesmo sem a renovação do contrato, boa parte dos médicos terceirizados do ICV continuaram ainda atuando nos prontos-socorro como credenciados no chamamento público. Nenhum profissional foi penalizado na auditoria feita pela Prefeitura. O caso agora deve ser analisado pela Justiça.
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