Aos 35 anos, o francano Augustinho Ferreira da Cruz é um colecionador de títulos. Ele já venceu seis vezes um dos mais disputados concursos de design de calçado do Brasil: o Francal Top de Estilismo. A última foi agora em 2016. Seu nome mais uma vez aparece entre os três vencedores da categoria de calçado masculino. Sua classificação deve ser anunciada em uma cerimônia no próximo dia 26 de junho, dia da abertura da Francal 2016.
Augustinho conta que começou sua carreira há 18 anos, trabalhando como auxiliar de produção na Calçados Democrata. Aos poucos, foi se apaixonando pelo universo da produção de calçados masculinos e decidiu se aperfeiçoar fazendo cursos no Senai. Em 2003, depois de apresentar a um colega uma de suas criações, foi convidado a trocar o chão da fábrica pelo setor de desenvolvimento de produtos. Não parou mais.
Hoje, é o designer responsável pelos modelos e projetos de solados de todos os calçados fabricados pela Democrata. “Sou apaixonado pelo que faço. Amo meu trabalho. Nem poderia ser diferente. Estou neste ramo há 18 anos e não penso em parar”.
Ele concedeu entrevista em uma sala na sede da fábrica na tarde de sexta-feira e contou o segredo do seu sucesso.
Aos 35 anos, você já é considerado um veterano no Top de Estilismo. Foi seis vezes vencedor. De onde vem a inspiração para criar tantos modelos premiados?
Na verdade, não é bem inspiração. Sempre tento inovar, apresentar algo diferente. Meus calçados são confeccionados com materiais alternativos, com texturas diferentes. Neste ano, por exemplo, apresentei um calçado feito com palha. Tinha visto uma bolsa com esse material e decidi que daria um bom sapato. Desmontei a bolsa e fiz o calçado que é um dos vencedores.
Mas não tem um ‘insight’, um ritual para seguir que traga as ideias?
Não. Para mim, é algo que acontece instintivamente. Já aconteceu de eu estar em um supermercado, olhar para uma prateleira, ver um material e ter uma ideia de calçado. Agora mesmo, a gente conversando estou vendo um tapete peludo ali fora que talvez desse para eu aproveitar em um projeto. É algo natural, não sei muito como explicar. Mas, além disso, acho que consegui me destacar porque entendo um pouco o que os jurados esperam das criações. É como quando recebo o briefing (informações e dados necessários para a elaboração do calçado) de um produto. Recebo as instruções e faço o desenvolvimento para atender às expectativas. Com o prêmio, é mais ou menos a mesma coisa. Sei que o que eles (os jurados) esperam é originalidade, texturas diferentes e ousadia. Tento colocar tudo isso no projeto. Normalmente, funciona.
E como nasceu essa paixão pelo design de calçados?
Comecei a trabalhar aqui na Democrata aos 17 anos. No último dia 16 de junho, completei 18 anos de carreira. Quando comecei, como auxiliar de produção, queria mesmo ter um dinheiro. Como não levei os estudos adiante, acabei arranjando esse emprego. Mas logo vi que se eu quisesse evoluir, teria de me esforçar, estudar. Foi quando abriram vagas para os cursos do Senai. Me candidatei. Era a oportunidade que eu tinha de crescer e não ia deixar escapar. Primeiro fiz um curso de corte, depois fiz o de designer. Em 2003, comecei a desenvolver meus modelos. Lembro que gostei de um deles e decidi mostrar a um amigo que trabalhava comigo. Ele também gostou e mostrou para o pessoal do desenvolvimento. Eles acharam que eu tinha algum talento e, na primeira vaga que surgiu, me convidaram para trabalhar no setor e aqui estou desde então.
E quando começou a participar dos concursos?
Minha primeira participação foi em 2008 e já ganhei. Fiquei sabendo do concurso pelo Senai e decidi me inscrever. Não esperava ganhar. Quando soube que tinha sido selecionado fiquei muito feliz. Como ganhei em 2008, me empolguei e continuei participando. Em 2010, veio mais um prêmio. No ano seguinte, outro. Em 2012, fui selecionado como vencedor em duas categorias. Nem acreditava. E agora de novo. Ainda não sei qual será a minha classificação, mas só de ser selecionado entre os três melhores já me sinto muito orgulhoso.
Durante muito tempo, a criação de modelos nas fábricas de Franca se resumia a copiar coleções européias. Como você avalia a qualidade do calçado produzido hoje na cidade?
Verdade. Houve épocas em que quase não existiam designers. Mas isso mudou muito. As indústrias estão cada vez mais investindo no setor de desenvolvimento e na especialização do pessoal. Em fábricas grandes, já existem designer para cada item do calçado. Eu mesmo trabalho como especialista no desenvolvimento de solados. As pessoas muitas vezes nem imaginam o trabalho que existe por trás da criação de um modelo novo para ser apresentado nas feiras. É um esforço árduo, que começa com uma pesquisa detalhada do público alvo, passando por tendências, noções de moda, materiais e, por fim, o design e a produção. Em Franca, nosso setor vem crescendo muito, ganhando espaço e importância. Ainda temos muito o que melhorar, mas hoje as grandes fábricas não fazem mais cópias.
Você falou sobre cópias. A pirataria no setor de calçados é grande?
Já foi maior. Antigamente, tudo o que desenvolvíamos era patenteado. As indústrias tinham brigas judiciais por conta dos modelos. Hoje isso é mais tranquilo. Raramente pedimos uma patente. Claro que as cópias ainda existem, mas são feitas por pequenas fábricas. As grandes já têm suas próprias linhas de criação.
E qual o sentimento de ver um produto seu copiado?
Antes eu ficava muito bravo. Irritado. Achava injusto. Hoje tenho outra visão. Quando vejo algo que criamos sendo imitado ou copiado, tenho a certeza de que fizemos algo bom. Tão bom que os concorrentes resolveram correr atrás.
Você trabalha com design de calçado masculino. Normalmente os homens são menos consumistas que as mulheres. Compram menos sapatos e investem menos em acessórios de moda. Como conquistá-los em uma época de crise como esta que estamos vivendo?
Esse conceito de que homem não compra muito sapato está mudando. De uns anos para cá, o mercado de modelos para o público masculino vem crescendo em ritmo acelerado. Se pensarmos na época dos nossos pais, veremos que os calçados masculinos eram pretos ou cafés. Tinham bico redondo ou quadrado. Não variavam muito. Agora, compare com os dias atuais. Hoje temos uma infinidade de cores. Os homens estão se preocupando mais com seu estilo. Antigamente, se um homem usava um sapato colorido, era visto com desconfiança. Hoje é sinal de bom gosto, de modernidade. Os homens de hoje querem estar bem vestidos e na moda. Têm bom gosto. Então, dão valor a um calçado bem produzido. Esse é o segredo.
Como você avalia o futuro das indústrias calçadistas de Franca? Acha que vão sobreviver à concorrência?
Acredito que sim. Hoje as fábricas estão cada vez mais investindo, inovando, criando. Acredito que os empresários que tiverem uma preocupação com a qualidade do que produzem e vendem, que estiverem dispostos a investir em materiais de qualidade, em capacitação de mão-de-obra, que conseguirem desenvolver um modelo de gestão viável vão sobreviver e crescer. Não acredito no fim da indústria calçadista.
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