Comparemos uma família com um jardim. Para que uma planta se erga, ramifique, dê bom fruto ou flor, e que essa flor vingue e apareça com cor, perfume inebriante, é necessário que o jardineiro a proteja. Tem que preparar o canteiro, afofando e adubando a terra para que gotinhas d’água possam chegar às tenras raízes da planta, levando-lhe os alimentos necessários à vida. Tem que a amparar ao nascer para que vendaval não quebre sua débil haste. É necessário que a regue e, por fim, evite que formigas e ervas daninhas a destruam. Com carinho e amor a planta se ergue, se robustece e mostra seu fruto ou flor. O jardineiro que não fizer isso, também tem um fruto: desilusão.
Se para a flor é necessário todo esse carinho, como não o será para uma criança que tem múltiplos jardineiros e amparo desde o berço? A mal e as más companhias representadas pelo vendaval e as formigas, representam o fim do progresso da vida de quem deveria ter, como único fim, desempenhar-se bem na sociedade.
Custa crer que hajam pais descurados que deixam suas crianças desfolharem-se. Privam-nas do bom fim que lhes era destinado. Não vive, uma criança descuidada. Vegeta. Será um parasita — a classe mais degradante e desprezível que infesta o mundo. A família tem o triplo fim de educar seus filhos para si, para a sociedade e para a Pátria. O que seria de nações beligerantes não fosse o amor pátrio de seus filhos? A família, com raríssimas exceções, tem deixado seus filhos crescerem à vontade, à rédea solta, como se acreditassem que o mundo os ensinará.
A criança é um cego que precisa de guia! Deixe-a à vontade e raro será aquela que chegará a ter boa entrada na sociedade! Maioria das vezes, antes de crescer, encontra o abismo, e o abismo encontra-se em todos os vícios, e todo vício é torpe e iníquo, já que é vício. Para a entrada na boa sociedade é preciso uma senha e essa senha é ‘educação boa’. Para se ter educação boa é necessário alguns rudimentos de instrução, seja pública ou caseira. Que educação tem um viciado? Nenhuma, ou só a má educação.
A família tem que garantir à sua criança, a boa senha da educação, e um dever, o do civismo. Sem civismo, não formará a ideia de Pátria. Infelizmente, Pátria, para os brasileiros, tem sido utopia. O amor por este torrão imenso em cuja superfície tudo são frutos, em cujo centro tudo são tesouros, em cujas montanhas e costas tudo são aromas... Raros são os que conservam sempre acesa essa lâmpada divina no santuário bendito de seus deveres de filhos obedientes e carinhosos.
A Pátria, mãe de todos, tem que ser ensinada pela família para que seus filhos a saibam amar, venerar e proteger no momento preciso, quando o estrangeiro, o ousado, o aventureiro a ofendam com seus ultrajes, ou com a ambição de posse. Que a educação e o amor à Pátria não permitam que se propague a vadiagem.
GUEDES FILHO: Este texto é do jornalista Guedes Filho, e foi publicado na edição semanal do Commércio da Franca, data de capa 14 junho de 1916. Tem, portanto, 100 anos. À exceção de uma outra palavra própria daquele tempo, e da defesa intransigente a amor e respeito à Pátria que já se viveu no Brasil e, hoje, se delega ao lixo, o texto demonstra o quanto perdemos como nação, ao relegar, ou deixar que o país relegasse crianças à própria sorte. Os não educados em casa vão à escola agredir professores e, descartados como possíveis cidadãos de bem, pós-graduam-se nas ruas, adotados por bandidos de muitos matizes que pregam que ‘nesta terra, em se plantando — mesmo sem cuidado —, tudo dá’, inclusive e especialmente, corrupção e impunidade. Escolhêssemos recomeçar hoje, criando filhos e filhas segundo a ótica de família responsável, escola, civismo, religiosidade e respeito humano, só em 30 ou 40 anos ocupariam eles, cargos de mando neste país...
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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