Por interesse, por ironia – sei lá – fazem indagações, querem saber como caminha meu viver.
— Bem... Vai tudo bem...
A resposta, reiterada, vale nada. Os curiosos continuam céticos. Tacham-me, lá longe, de orgulhoso, de hipócrita, de cínico. Mesmo amigos e conhecidos ignoram atenuantes, são implacáveis no julgamento.
— Mente feito menino, coitado.
Sei, soube sempre – é verdade – que nos períodos de estio, nas horas de enchentes, a voz da mulher é que espantava meus medos. Quando meu corpo tremia, os dedos dela faziam vibrar as cordas do violão, depois corriam pelos meus cabelos crespos, e tudo era acalanto.
Eu usufruía os juros da vigília santa: meus olhos dormiam, e os sobressaltos, também. Meu coração, madornando no colo tépido, sabia que a chuva voltaria, que o dilúvio se iria pela madrugada.
Um dia, a mulher desenhou no espírito uma estrada onírica que atravessaria campinas e vales. Por ela, chegaria a uma praia, no momento de o sol, sedento de amenidades, banhar-se nas ondas. Então, de costas na brancura só, adormeceria contando estrelas.
Sonhou o amanhã e partiu.
Desde então, começou a vizinhança a especular.
— Bem... Está tudo bem... – reitero.
O povaréu não acredita, e seus olhos e seus gestos revelam dúvidas, descrenças. Dó.
E é verdade. Tudo – o essencial, ao menos – continua como sempre. Seca vem, enchente vai. Vem primavera, verão, vem outono... As folhas voam, pousam no chão, viram tapete por onde caminha a lembrança da mulher.
— Está tudo bem.
Respondo, enquanto olho para a copa da paineira. Meus olhos sorriem, e minha certeza permanece colorida.
— Está tudo bem.
Tudo está bem, tudo desliza à tona da correnteza da normalidade.
Tudo está bem.
Rumino, solitária e pacientemente, o fruto agridoce que colho na árvore da minha sina.
Pacientemente, rumino minha dor, que sofrimento eu não cultivo.
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