Letras brancas, fundo negro, trilha sonora com jazz ou canção inculcada na memória afetiva de quem tem mais de 40 anos; e um elenco estelar. Estes são traços expressivos de todos os filmes de Woody Allen, inclusive os de “Você vai conhecer o homem de seus sonhos”, a que só consegui assistir nesta semana. Está tudo ali, como num ritual, e isso conforta o espectador que é fã do grande cineasta norte-americano cuja produção vasta, um filme a cada ano, já passa das quatro dezenas de títulos.
Na comédia cujo título tomei emprestado para encimar minhas considerações, nomes brilhantes na arte da dramaturgia formam a galeria de atores que não deixam dúvidas ao espectador de que a história a ser mostrada será no mínimo convincente. Mirando Londres mais uma vez como espaço cosmopolita, o cineasta coloca no centro da história Sally (Naomi Watts), jovem que tem formação em artes mas trabalha como secretária -faz-tudo numa grande galeria cujo proprietário é vivido por Antonio Banderas. Em torno dela outros personagens se movimentam. A mãe Helena (Gemma Jones), 60 anos, separada recentemente do marido com quem ficou casada por quatro décadas. O pai Alfie (Anthony Hopkins),que acordou no meio da noite muito surpreso com a certeza de que a vida é finita e o melhor a fazer é curtir o que resta de seus dias. O marido Roy (Josh Brolin), escritor que fez sucesso ao lançar o primeiro livro e depois não conseguiu emplacar mais nada, apesar das tentativas, o que o atormenta.
A história começa com o desequilíbrio emocional de Helena. Inconformada com a separação, ela fica refém das promessas de uma cartomante chamada Crystal, que lhe desenha no futuro o tal homem de seus sonhos. Continua com as cenas hilárias do processo de rejuvenescimento de Alfie, com seus exercícios de academia, pílulas azuis e um casamento com mocinha pilantra. Prossegue com o envolvimento idealizado de Sally por seu patrão e, em simetria, a atração realista de Roy pela vizinha indiana interpretada por Freida Pinto. Na metade do filme os casais já estão separados e cada um busca refazer sua vida baseado em equívocos. Aos poucos Alfie descobre que sua jovem mulher é uma prostituta; Sally é confrontada com a verdade de que seu chefe não sente nada por ela; Roy cai na tentação de roubar os originais de um amigo que ele crê morto e os encaminha a uma editora para ser publicado como seu; Helena, cada vez mais perturbada, encontra um homem de crença reencarnacionista que ela acredita ser aquele descrito pela cartomante. São enfim várias pequenas histórias que Allen não quis emendar para que se tornassem uma só. A força do filme reside em tal escolha, que pode despertar nos desavisados a sensação de incompletude no epílogo. Acabou?- Perguntam-se eles diante de certa vacuidade que os créditos que correm na tela só lhes confirmam.
Acontece que Allen quis fazer um filme que busca espelhar acontecimentos da vida comum, pontuada de interregnos, de faltas, de ausências. O círculo não se fecha; os relatos não se concluem; não há ponto final a não ser na morte. Enquanto vivemos, nós somos sujeitos e objetos; e tanto influenciamos como somos influenciados, premidos também por circunstâncias de toda ordem. Daí a escolha de um final em aberto que nos permite retomar as diferentes narrativas e criar em nossa imaginação possíveis continuidades a partir do ponto em que o diretor as entrega para nós, espectadores. Nem happy end, nem bad end, porque assim é a vida, work in progress.
Quanto à sequência das cenas, cada unidade pulsante capturada pela câmera é importante por si mesma. Os vários fragmentos aprisionados formam um tipo de coral onde as vozes ora se alternam, ora soam desconsertadas, e ainda nos raros momentos em que parecem uníssonas, impõem-se pelo timbre singular.
O roteiro inteligente nos leva a refletir sobre caminhos, expectativas, tropeços, ilusões e principalmente escolhas que movimentam as peças no xadrez da existência. O amor é tratado sob a ótica da inconfundível ironia de Allen. E desde as primeiras cenas emerge aquele tom de leve tristeza diante do sofrimento humano que se exibe no medo da morte em Alfie; no pavor à solidão em Helena; na angústia da criação em Ray ; na frustração da maternidade em Sally. O ridículo que não é explícito, mas perceptível em muitos diálogos, não poderia estar ausente de um filme tão autoral. Muito menos o pessimismo frente à incapacidade do ser humano de entender a si e ao outro.
O uso do narrador em off, recurso largamente utilizado por Allen em vários filmes, neste seu 36º resgata logo de cara trecho bastante difundido de Shakespeare , parte do quinto ato de Macbeth: ““Fora! Apaga-te, candeia transitória! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de som e fúria, que nada significa.”
Ao final dos 110 minutos de duração do filme, somos convidados a retomar a abertura shakespeariana. Porque as histórias inconclusas às quais fomos apresentados nos mostram exatamente isso: o tempo é fugaz; nossas ações não alçam a importância que gostaríamos; o descontentamento é uma constante; a mentira, um disfarce que se tenta fazer durar; a desilusão, componente de todos os relacionamentos; e ainda há medo, insegurança e frustração a serem enfrentados a cada dia. Muito som, muita fúria, nenhum sentido.
No entanto, a simples menção à morte nos assusta, como apavora Alfie e desestrutura Helena. Apesar de tudo, queremos viver em meio à “sombra ambulante”, mantendo a chama da esperança em relação ao que pode sobrevir depois de um luto. E isso acabamos em geral conseguindo: superar uma dor até que apareça outra no nosso breve trânsito pela vida que, se comparada à música ou à dança, uma hora cessa. Acabam-se o som, a fúria. Imobilizam-se as coreografias desconjuntadas. A estética do filme triunfa.
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