Todo mundo já sabe que, no Brasil, a classe política trabalha sempre em seu próprio benefício, ignorando completamente o seu eleitor. Deixar nas mãos dos legisladores qualquer matéria que lhes interessa diretamente é como entregar a chave do galinheiro à raposa (ou ao gambá). Algumas particularidades de nossa legislação levam a esta conclusão, como o chamado foro privilegiado, do qual se valem autoridades eleitas (como presidente, vice, senadores, deputados, governadores e prefeitos), além de membros do Judiciário e ministros de Estado. Atualmente, existem outros países que adotam sistemas parecidos, como Portugal, Espanha, Argentina e Colômbia. Mas é possível afirmar que em nenhum outro essa prerrogativa é estendida a tantos indivíduos quanto no Brasil (ao menos se analisarmos a constituição de cada País). Calcula-se que 22 mil pessoas possuem foro privilegiado por aqui. Nos demais países, não passam de uma dezena.
No meio de toda a agitação das revelações de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, aos investigadores da Lava Jato, passou praticamente despercebida a votação do projeto que cria uma nova lei para as estatais na Câmara dos Deputados, na madrugada de ontem. O texto aprovado, em votação simbólica, traz mudanças significativas na proposta do Senado, que podem comprometer o objetivo da nova legislação, que é de reduzir o aparelhamento dessas empresas. Foi incluída a permissão de que dirigentes partidários e sindicais possam participar da diretoria e dos conselhos de administração das estatais. Isso era vedado na proposta anterior. Também foi retirada do texto a proibição de que pessoas que, nos últimos 36 meses, participaram de atividades político-partidárias, de campanhas eleitorais e de organização sindical, ocupem esses cargos. Com isso, ficou vedada apenas a indicação para cargos na diretoria e nos conselhos de administração das estatais os ministros e ocupantes de cargos de confiança no setor público.
Fica bastante claro que a maioria dos deputados federais não está minimamente interessada no combate à corrupção. O projeto seria uma primeira tentativa de colocar nos postos de comando de estatais e autarquias apenas servidores de carreira, impedindo as nomeações políticas em troca de apoio, uma porta aberta à corrupção. Diante deste quadro, cabe aos brasileiros demonstrarem interesse em fazer valer a sua força e promover uma completa reformulação em todos os níveis, começando pelo município, em outubro próximo. O voto é a principal arma para que busquemos eleger políticos que nos representem com seriedade, dentro da legalidade e preocupados com o crescimento do País. Que o façamos valer, antes que o Brasil chegue a um ponto sem volta.
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