O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados demonstrou ontem que nem todos os seus integrantes se apoiam no fisiologismo e no corporativismo que domina grande parte da política brasileira. Mesmo que tenha se deixado levar por manobras que fizeram arrastar por meses a fio o processo de cassação de Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O presidente da Casa, que só foi afastado em função de decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), acusado de mentir na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras -- disse que não tinha contas na Suíça --, tentou, ao lado de aliados fiéis, impedir o prosseguimento da ação e utilizou de subterfúgios linguísticos para tentar deixar o dito pelo não dito. No fim de tudo, ao contrário do que esperava, os conchavos não valeram. O Conselho de Ética aprovou ontem por onze votos a nove a cassação de Cunha num processo que tramita desde outubro na Câmara e é o mais longo da história da comissão de ética.
Os votos decisivos vieram por parte da Tia Eron (PRB-BA), que ainda não havia tornado público seu posicionamento, e Wladimir Costa (SD-PA), que mudou o voto. A pressão popular permitiu o resultado. O pedido de cassação agora precisa ser aprovado em plenário pelo voto de ao menos 257 dos 513 deputados. Antes, a defesa de Cunha pode recorrer à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara sobre eventuais falhas na tramitação do caso. Apenas depois é que o conjunto dos deputados decide sobre a perda do mandato. Espera-se que o parlamentar não tente mais protelar o resultado do processo que, ao cabo, lhe será amplamente desfavorável.
O brasileiro aguarda que a cassação do mandato de Cunha seja seguida por outras, de políticos igualmente comprometidos com a roubalheira, as fraudes e os esquemas criados apenas para embolsar o dinheiro dos cofres públicos. Eduardo Cunha faz parte de uma estirpe que vem participando das decisões do Brasil no correr dos séculos: sempre em busca de vantagens pessoais e que se perpetuam no poder em razão do poderio econômico e de manobras ilegais, imorais e danosas ao País. Investigações da Lava Jato mostram que o presidente afastado da Câmara se beneficiou de milhões de dólares desviados de cofres públicos, principalmente da Petrobras, dinheiro depositado em contas na Suíça e torrado à larga em viagens luxuosas, numa gastança incompatível com os vencimentos de um deputado federal. A decisão de ontem é o começo do fim para o parlamentar fluminense que, sem foro privilegiado, deverá coroar seu mandato com um período na cadeia. É o que o País espera, principalmente que a ele sigam todos aqueles que meteram a mão no dinheiro dos contribuintes.
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