O poder do rádio


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A rádio Difusora comemorou dia 10, 54 anos de atividades ininterruptas como serviço diuturno de utilidade pública, lazer e, especialmente, relato da história francana, regional, mundial. Lembro-me da inauguração da antiga rádio Piratininga, que deu origem à Difusora de hoje em 1962. Eu tinha nove anos.
 
Meu pai trabalhava na Casa Syria, praça Barão da Franca e, na época, comentou com mamãe Juraci e comigo, sobre os preparativos para inauguração da nova rádio, que aconteciam ao lado da loja. Eu conhecia e já tinha visitado a PRB-5. Encantava-me a forma com que radialistas falavam português com pompa e elegância, sem errar.
 
No dia, terminadas as aulas no ‘Cel. Francisco Martins’, fui para o Centro. Recomendações várias de meu pai — não perturbe ninguém, não converse com estranhos, venha no meio da tarde para o lanche (chocolate batido com leite em liquidificadores estranhos na Leiteria Polar, e pão com manteiga), e volte às 17h30 em ponto, porque sua mãe não gosta de esperar — fiz plantão na praça observando a montagem do equipamento para que Giane cantasse à noite seu ‘Dominique, nique, nique...’, saudando a ocasião.
 
Também consegui entrei na rádio, situada na rua do Comércio, andar superior do Banco de Crédito Real de Minas Gerais. Nomes ‘gritados’ na correria que imperava lá, ficaram na memória — Antônio Augusto, Amaury, Valdes (meu vizinho de avenida Major Nicácio). Antônio Augusto (Nunes de Souza) foi, e eu soube depois, o primeiro a falar quando a rádio entrou no ar.
 
Rádio no ar, assustei-me certo dia, com um dos noticiaristas (Paulo Santos?) comentando sobre o fim do mundo. Com voz grave dizia que podia acontecer rápido. Fiquei apavorado. Passou tempo até que eu entendesse que ele falava sobre grave tensão entre Estados Unidos e Rússia, por causa da instalação de armas nucleares em Cuba. Eu não compreendia o poder de arma nuclear. Só imaginava o que poderia perder se o mundo acabasse...
 
O poder de interpretação de Amaury Destro, outro das vozes de ouro da época, também ficou marcado. Em 1963 interrompeu programa de variedades para noticiar o assassinato de John Kennedy, presidente norte-americano. Na interpretação dele havia um misto de descrença, tristeza, e grande preocupação. Voltei a pensar no fim do mundo. Já com Valdes Rodrigues a cidade viveu toda a evolução da Jovem Guarda. Quem foi rei sempre será majestade.
 
Garotos e garotas eram todos como eu. Nossos brinquedos eram bola de cobertão, bola-e-bete, bolinha de gude, pião, pipa. Nossas responsabilidades, respeito absoluto a pai, mãe e professores, escola, espiritualização, muita leitura. Mudou tudo. O relacionamento humano deixou de ser importante. Para mim, dentre os meios de comunicação, só o rádio continua capaz de fazer companhia quando mais precisamos.
 
O PODER DA VOZ: Falei esta semana, no programa de Everton Lima, na Difusora. Teve ele a bondade de achar que sou parte da história do rádio francano, o que me honra. Ao final do programa, fui surpreendido por comunicação da senhora Edna Helena de Morais, com que conversei uma única vez por telefone. Disse-me que ouviu o programa de Everton e reconheceu minha voz como a da pessoa que havia lhe telefonado em 2013, para avisar que estava conosco cão que pertencia ao noivo — Júlio César —, de sua filha Caroline, que tinha desaparecido. Contou-me que não sabia que eu era o Luiz Neto do rádio, mas que, passado um tempo, queria ter falado comigo de novo para contar sobre a profunda emoção de seu genro, Júlio, pela devolução do cão, e que isso ‘significou, para ele, uma das últimas alegrias de sua vida, já que, com câncer, morreria aos 20 anos, 10 meses após lhe entregarmos o animal’. Choramos juntos. Prova incontestável de que o calor humano que rapidamente, desaparece da história humana, ainda insiste em aparecer aqui e ali.

Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br 

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