Estupro coletivo


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Estupro coletivo contra cidadã, no Rio de Janeiro, escancara a violência sistemática e crescente que mulheres sofrem no Brasil. Numa era em que a comunicação ganha imensa capacidade de compartilhamento, temos que entender que tanta conexão pode destruir ou salvar vidas, de acordo com a difusão que a mensagem tenha, e da capacidade de reação das pessoas diante do que veem. Essa barbárie precisa ser profundamente compreendida para permitir reviravolta na forma como enfrentamos violência contra mulheres.
 
Mesmo conscientes da promulgação de lei voltada ao enfrentamento de violência doméstica contra a mulher — a lei Maria da Penha —, não se deve estranhar a ocorrência do crime contra a moça no Rio. Se precisamos de leis para mudar condutas violentas, é porque constatamos a falência do comportamento humano.
 
O machismo tem grande responsabilidade. Ocomportamento é acobertado, aceito e camuflado por suas origens culturais, sociais, religiosas e familiares que relegam à mulher, plano secundário. Essa cultura impede a igualdade entre homens e mulheres. Falar sobre igualdade de direitos significa negar mínimo espaço à discriminação, ao preconceito, à humilhação. Significa ser solidário com a dor de pessoas que têm direitos violados.
 
Olhar para estupro de trinta homens contra uma menina de 16 anos, tem que ensejar reflexão renovadora. O que mais nos choca? A violência sexual? A quantidade de homens que se predispuseram à sua satisfação sexual? Aos trinta cujas masculinidades só se reforçariam com a consumação do coito? À moça desacordada, indefesa e completamente suscetível?
 
Muitos não enxergam o estupro em si, como fator mais gritante. Temos, na pior das estatísticas, uma mulher sendo acometida por este delito a cada onze minutos! Digo pior das estatísticas porque este é um tipo crime que não se revela facilmente. Há uma cifra oculta camuflando a dor de milhares de moças como a do Rio.
 
Estupraram a moça do Rio, mas estupram as moças do Brasil. E estuprarão. Discutir, então, papeis de gênero é prevenir feminicídios, ameaças, agressões, humilhações. Também, estupros. Vemos crianças e meninas sendo acometidas por delitos sexuais em que seus algozes não são os desconhecidos, mas homens de suas famílias, próximos e íntimos; justamente aqueles em que mais confiam. Aliás, é a confiança é a arma de quem estupra nessas situações. Fazem até que a vítima se dê conta de que não era carinho. Era violência.
 
Cada ação criminal proposta segue marcha tão dolorosa quanto a violência sofrida. Questiona-se à vítima, descortina-se sua moral, inicia-se a caça à absolvição. A devassa a estupra novamente! O perpetrador continua solto, e vai estuprar sem crer que violenta, sem receio de ser pego. Não teme nada. Aliás, faz propaganda e coloca na internet, assim, como um troféu.
 
Qual é o limite para a violência e o respeito? Justiça eu quero. Mas queremos pessoas na Justiça que compreendam as raízes da violência contra a mulher, que respeitem suas histórias, que nos tornem cidadãos. . Acredito que para nos capacitarmos ainda mais para prevenir estupros, precisamos enfrentar de forma cada vez mais efetiva, crimes contra as mulheres neste país. Ajude-nos a permitir que filhas, mães, irmãs, tias sejam donas de suas próprias vidas.
 
ESPAÇO DEMOCRÁTICO: O texto que você acaba de ler é da Promotora de Justiça Fabíola Sucasas Negrão Covas, responsável pelo GEVID/Grupo de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, do MPD (Movimento do Ministério Público Democrático). Estimulo você a dizer o que pensa. Use e-mail. O fato do Rio é só um dos sinais do fim do respeito e das relações humanas frente à sociedade tecnológica fria que passivamente aceitamos ser.
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 
 

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