A Câmara de Ribeirão Corrente aumentou o salário dos vereadores em 35% durante sessão realizada na última terça feira. Mais do que o expressivo reajuste no período de crise, em que a contenção de gastos deveria ser regra no poder público, chamou a atenção a desculpa dos políticos para justificar a correção salarial: pelo menos dois parlamentares disseram que usam o dinheiro para dar botijões de gás, cestas básicas e pagar contas de moradores da cidade. As declarações chamaram a atenção do Ministério Público, que abrirá inquérito apurar se a prática configura compra de votos.
O projeto original apresentado pela Mesa Diretora previa um aumento de 10,7% tanto para os próximos vereadores, quanto para o futuro prefeito. Uma emenda apresentada por cinco parlamentares propôs que o reajuste fosse de 35%. “Cinco minutos antes da sessão, eles se reuniram em uma sala com o advogado e decidiram retirar a emenda que alterava o salário do prefeito, que ficou em 10,7%. O percentual que eles haviam proposto para eles de 35% foi mantido”, disse a presidente da Câmara, Aninha Montanher (PTB).
Levado à votação, o projeto foi aprovado com sete votos favoráveis e dois contrários, o de Aninha e o do vereador Rildo (PSB). Com a decisão, o salário dos vereadores saltará de R$ 1,9 mil para R$ 2,7 mil. O aumento pode ser imoral, mas não é ilegal.
Polêmica
A justificativa para aumentar os salários, apresentada por dois parlamentares na tribuna da Câmara, causou polêmica. Eles disseram que precisam “ganhar mais” para continuar fazendo doações a eleitores.
Mauro Aparecido Gonçalves (PMDB), o Mauro Polícia, chegou a fazer uma conta durante discurso na tribuna para defender o aumento dos salários.“O vereador ganha R$ 49,44 por dia. Um botijão de gás custa R$ 55. Chega um indivíduo na minha casa e pede um botijão. Eu dou o botijão pra ele e meu dia já foi embora”. A declaração irritou servidores públicos que estavam no plenário.”Antônio Rodrigues Filho (PSDB), o Tunicão, também defendeu que precisa “ganhar mais” para distribuir aos moradores da cidade. “O meu salário eu dou para quem precisa. Se o cara bater na minha porta e eu conhecer, eu ajudo. Dou uma cesta básica, um litro de óleo, gás, pago uma conta de energia, de água porque sei que a pessoa precisa”, disse.
Mauro não foi encontrado pelo Comércio para comentar suas declarações feitas anteriormente. Tunicão confirmou a prática da política assistencialista. “O vereador tem que ganhar o suficiente para ajudar o povo. O salário que eu recebo não é para mim, é para doar para o povo”. O vereador admite que sua atitude não é correta. “Não é bem certo, mas quando a pessoa bate na sua porta, qualquer ser humano com o coração mole, não vai deixar a pessoa sair sem nada”. Para ele, as doações aos eleitores não configuram compra de voto. “Não é o papel do vereador, mas não é compra de voto, não é nada. É uma ajuda a quem precisa”.
Não é muito bem o que pensa o Ministério Público. Responsável por Ribeirão Corrente, o promotor de Justiça Eleitoral, Yuri Borges de Borges, encontra-se de férias. Tão logo retorne às atividades, abrirá inquérito para investigar o caso. “Vamos apurar se as doações faltando poucos dias para o período eleitoral configuram eventual compra de votos”, disse.
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