O esporte francano mais tradicional se renova e aposta num DNA consagrado para despontar novamente no cenário nacional. Após uma carreira vitoriosa como atleta e, também seguindo os passos do pai, Hélio Rubens Garcia, Helinho agora é o técnico do Franca Basquete. Depois da cravar seu nome no seleto hall de ídolos do clube, Helinho espera escrever um novo capítulo, também vencedor, agora como comandante do time.
Em sua última temporada como jogador profissional, em 2015, Hélio Rubens Garcia Filho manifestou o desejo de seguir o mesmo caminho do pai e tornar-se treinador. Com a aposentadoria, Helinho continuou a vida no basquete, como gerente-executivo de Franca. O período longe das quadras durou apenas uma temporada. Aos 41 anos, ele vai ocupar a vaga de Lula Ferreira no comando da equipe.
“É um momento muito importante para mim. Me sinto feliz e honrado. Sei a responsabilidade que terei em comandar uma equipe com mais de 60 anos ininterruptos no esporte e que teve apenas cinco técnicos ao longo de sua história. É uma emoção muito grande. Espero contar com o apoio de todos”, afirmou.
Helinho passa a ser o sexto treinador na história do time. Pedro Murilla Fuentes, o “Pedroca”, foi técnico do time de Franca desde a Escola Torquato Caleiro, onde o projeto começou na década de 1950. Ele permaneceu até 1981. Depois, Hélio Rubens assumiu a função e dirigiu o time por 24 anos. Daniel Watffy e Chuí também comandaram o clube. Por fim, Lula Ferreira, contratado em 2012, esteve por quatro temporadas à frente do time.
Além de toda experiência adquirida ao longo da carreira como atleta e ao lado do pai, Helinho teve a oportunidade de realizar um estágio no time atual campeão da NBA (liga de basquete norte-americana), o Golden State Warriors. “Acompanhei por 18 dias a equipe do Golden State Warriors e foi muito importante para mim. Aprendi tanto a parte estrutural, como também trabalhos específicos de quadra na parte técnica e tática. Vou tentar trazer para nossa realidade algumas coisas que vi por lá”, disse.
Helinho tem consciência da responsabilidade que terá pela frente e da pressão que possa vir a sofrer nesta nova função dentro do basquete. O novo treinador do Franca espera se espelhar na história vitoriosa construída dentro da quadra, como atleta, para encarar de corpo e alma esse novo desafio imposto para sequência de sua vida como esportista.
Com uma carreira consolidada como atleta, por que você decidiu se tornar treinador de basquete? Quando foi que despertou esse desejo de seguir os passos do seu pai?
Já vinha me preparando há um bom tempo. No final da minha carreira como atleta, comecei a pensar e vislumbrar isso. Como era armador, sempre dava minha opinião e tinha uma boa leitura de jogo. Na rua, todos me perguntavam quando iria virar treinador. Como eu gosto (de basquete) e é uma coisa que cresci fazendo e ganhei conhecimento nisso, resolvi que estava na hora de encampar essa ideia, dentro da minha cidade, como “Filho de Franca”. Veio calhar no momento que achei que a oportunidade era boa e acabei tomando essa decisão de aceitar o desafio.
Você inicia sua trajetória como técnico em casa. Como lidar com a pressão pessoal em seu primeiro trabalho e ao mesmo tempo com o jejum de títulos de um clube acostumado a vencer?
Acho que Franca passa por um momento que precisa realmente voltar a ganhar tanto dentro de quadra como fora, em sua organização. Meu pai sempre fala em palestras que faz ou em casa, que um médico não pode se preocupar se a cirurgia vai dar certo e, sim, se preocupar com o que precisa fazer naquele momento. E meu foco é esse. Estou preocupado com o momento aqui na quadra, no treinamento que passarei ao time, o que vamos cobrar, a postura tática ofensiva e defensiva que pretendo utilizar. Aprendi ao longo dos anos que a gente tem que traçar os objetivos de acordo com a nossa realidade. Se nossa realidade for chegar entre os seis primeiros, vamos tentar buscar isso. Se nossa realidade for chegar a uma final e ser campeão, vamos buscar. Eu sempre fui realista nessa questão e não vou mudar isso.
Você construiu uma história de idolatria com o torcedor francano. Daí você decide virar treinador. E no esporte, o técnico tem seu trabalho taxado por resultados, e consequentemente sofre uma cobrança maior por ser o comandante. Você não teme ter sua história arranhada ao ouvir xingamentos das arquibancadas em caso de derrotas?
Pelo contrário. Sempre tive grandes desafios em minha carreira e aqui os desafios sempre foram maiores. O esportista é movido a esses desafios, e eu procuro ver com muito mais otimismo do que pessimismo essa minha função. Assim como qualquer torcedor francano, também sou apaixonado pelo basquete, e quero fazer que meu trabalho seja reconhecido. Claro que conquistas são melhores, mas também pelo trabalho do dia a dia, pela formação, ganho (profissional) dentro da quadra. O trabalho de técnico eu considero muito mais abrangente do que o resultado final.
Por toda experiência vivida ao longo da carreira de atleta e por ter trabalhado com seu pai e alguns treinadores, qual o perfil que pretende adotar agora como técnico do time?
Acho que o perfil vou ganhando ao longo dos dias, dos meses e anos. Mas vou procurar ser a mesma pessoa que fui, um cara tranquilo, humilde, extremamente disciplinado e comprometido com a causa que abraço, e é claro que vou exigir isso dos meus comandados. Pois vejo que essa é a razão de ser da conquista e da vitória. O comprometimento e a disciplina foram razões na minha vida como jogador, e com certeza será agora como treinador.
Você esteve nos Estados Unidos e acompanhou o dia a dia do atual campeão da NBA, o Golden States Warriors. Como foi essa experiência? O que você viu e detectou que pode ser implantado nos treinamentos ou jogos aqui no Brasil?
Realmente acompanhei por 18 dias a equipe do Golden State Warriors e vi não só a parte estrutural como também as questões técnicas e táticas. Algumas coisas interessantes que podemos colocar em prática. Vou tentar trazer para nossa realidade algumas coisas que vi por lá. Foi muito importante esse estágio que fiz, e serviu para introduzir conceitos que adquiri ao longo da minha carreira como atleta para colocar em prática nesses anos que pretendo ser treinador.
Quando o Lula Ferreira dirigia o time, qual foi seu papel no auxílio da equipe? Agora com os cargos invertidos, como você espera que Lula Ferreira possa contribuir em sua nova função?
Aqui em Franca, já dizia que o trabalho que estaria assumindo seria muito difícil, mas com os técnicos que posso ter do meu lado, que são meus amigos, como o Lula, meu pai, o Chuí, o próprio Daniel (Watffy) e o Fernandinho (Fernando Penna), que estarão no banco comigo como assistentes, o Demétrius (Ferracciú), que é meu compadre, são pessoas importantes e que posso contar. Na época do Lula Ferreira como treinador, a gente sempre trocou ideias daquilo que seria importante ao time, onde deu certo, erros, o que deveria ser feito, enfim, acho que poderei contar com ótimo apoio fora das quadras e isso me dá confiança e otimismo.
Helinho, você tem seu pai como grande ídolo e como jogador teve que enfrentar a pressão de ser filho de um dos melhores jogadores de basquete do Brasil. Por força do destino, você decidiu seguir os mesmos passos de vir a ser treinador. Como você espera encarar agora as comparações entre vocês, agora como técnicos?
Acho que haverá essa comparação, mas acredito que será uma pressão diferente, por já ter provado dentro da quadra, como jogador, do que era capaz. Acho que adquiri um respeito natural pelo que fiz e conquistei. Vai existir uma pressão natural, mas será menor, e estou preparado para suportar. Tenho realmente o espelho do meu pai e quero ter da forma mais positiva possível, do conhecimento que ele tem, daquilo tudo que conquistou, sendo o maior vencedor do Brasil como treinador. Em quadra, consegui desvincular a relação pai e filho para técnico e jogador. Agora, técnico com o filho técnico, também vai ser muito bacana.
Algumas pessoas questionaram e falaram que você deveria adquirir uma experiência maior antes de vir assumir o comando do time profissional. Disseram que você deveria ser auxiliar técnico e vir a dirigir algum time da base para não se ‘queimar’. Como você recebe esses questionamentos?
Eu respeito qualquer opinião que as pessoas possam ter. Venho me preparando há anos, tanto fora da quadra ao lado do meu pai, indo fazer estágio... O Guerrinha (Jorge Guerra), quando parou de jogar, veio a assumir como treinador, assim como meu pai. Eu posso ter conquistas, como posso não ter, mas isso eu acho que não é influência em ser técnico direto sem ser técnico do time sub-22. Tenho apoio e conhecimento adquirido ao longo dos 40 anos jogando e acompanhando diariamente a vida de um técnico, onde discutia ideias, táticas e daquilo que seria uma melhor opção. Respeito as opiniões, mas a partir do momento que resolvi assumir a função, estou preparado para isso.
A vida de um esportista é movida por conquistas e sonhos. Como atleta, acredito que tenha alcançado a maioria de suas metas na carreira. Agora como treinador, além de ganhar por Franca, dirigir a seleção brasileira é um dos objetivos traçados por você?
Acho que qualquer pessoa que assume um determinado cargo tem que pensar no maior objetivo. E um maior objetivo de um treinador é ser técnico da seleção brasileira. Claro que tenho sonho, mas acho que tenho muito caminho pela frente e sei de tudo aquilo que terei que me preparar. Vou procurar focar primeiramente no meu trabalho aqui no Franca Basquete, para depois pensar gradativamente e alcançar outros objetivos. Tenho noção da realidade que o momento agora é ganhar conhecimento, aperfeiçoar cada vez mais, continuar crescendo como pessoa e treinador, para depois dar um passo maior do que esse que estou dando agora.
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