Conversa comigo mesmo - Final


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Nas três últimas semanas utilizei este espaço valioso que o Comércio me concede para um quase exame de consciência sobre o Brasil que, com nossos votos, produzimos. Durante este tempo, o país viveu a posse do presidente interino Michel Temer, a condenação de José Dirceu a 23 anos de prisão; o afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara Federal; a tentativa do presidente interino daquela casa, Waldir Maranhão, de anular autorização que a maioria dos deputados federais deu ao Senado para consumar, ou não, o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 
 
Fatos históricos demais em pouquíssimos dias, a nos lembrar que, como brasileiros, falhamos quando vamos às urnas e depositamos votos inconscientes em qualquer um, por mera obrigatoriedade.
 
Tenho dito, aqui, e com regularidade, sobre a genética bandida de nosso povo. A raça brasileira, de muitos preguiçosos e incapazes de se preocupar genuinamente com algo ou alguém, é, grande parte, resultado de 330 anos de colonização a qualquer custo, praticada por incontáveis que trocaram perdão a crimes cometidos por passagem só de ida para a Terra de Santa Cruz, onde teriam que ampliar fronteiras, estabelecer posse definitiva de terras e formar famílias. De quebra, desfrutariam de riquezas minerais, vegetais e tudo o mais que estivesse à mão, inclusive nativas lindas. A opção por levar vantagem em tudo é séculos anterior ao futebolista Gerson e à ‘sua lei’. 
 
Batalhei sempre — e continuo — pelo fim do silêncio dos bons. Quem tem o que dizer, deveria sempre fazê-lo, em busca de compreensão ou contestação. 
 
Tive a alegria de ver o despertar de calados que viviam enclausurados por cercas eletrificadas, alarmes de todo tipo, câmeras monitoradas, seus próprios medos. Dei-lhes espaço. Acostumaram-se. Tomaram gosto e se tornaram referência de seus grupos profissionais e familiares. 
 
Lembro-me de centenas de alunos, professores, coordenadores e diretores de escolas do ensino fundamental, médio e universitário que, estimulados pelas discussões que para cá trouxemos, nos convidaram a palestras sobre a questão e passaram a desenvolver ações para ampliar a possibilidade.
 
Dar voz às pessoas significa, para mim, democratizar o exercício do livre pensar. Os três textos ‘Conversa comigo mesmo’, que aqui publiquei nas três últimas semanas, foram mais uma experiência do tipo. 
 
Há dois meses, o articulista, advogado e professor universitário Acir de Matos Gomes comentou comigo sobre reflexões cidadãs sobre o momento histórico e político brasileiro, feitas por amigo dele, e perguntou se eu as leria. Claro, por que não? Surpreendi-me. Pensávamos, o autor e eu, e quase integralmente, da mesma forma. Perguntei a Acir quem tinha escrito. Nova surpresa. 
 
Foi assim que conheci padre José Ricardo Batista Cintra, pároco da Igreja de Santa Edwiges, do bairro Nova Franca. É raro ver religiosos comentando individualmente sobre o cotidiano social e político do país. Ordens religiosas têm regras pétreas sobre posicionamentos públicos. Definem-se, quase sempre, por declarações institucionais. 
 
Não me lembro, e já são 48 anos de exercício de jornalismo, de algum religioso ter organizado fatos e apresentado pontos de vistas próprios com a lógica e no modelo com que padre José Ricardo o fez. Esse quase exame de consciência cidadã poderia ser modelo para cada brasileiro compreender o que, efetivamente, acontece em seu país. 
 
Cumprimento-o. Foi referencial. Eu assinaria sem pestanejar o que ele produziu. 
 
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br

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