“Lembro eu deitado na relva/No frio da manhã/Numa clareira da aldeia Tupi/Entre mil pássaros só uma voz/Uma voz, minha mãe/Música doce/Chamando meu nome/Cauby! Cauby!/
Nome com qual o meu pai/Seu orgulho plantou/A árvore da minha vida – paixão/Minhas raízes cravadas/Bem fundo no chão/Mas os meus galhos/Meus ramos e flores/Pro céu, pra ti/
Depois mil vozes ouvi/Que me queriam chamar/Que me queriam levar de mim/Tantas mulheres febris/Loucas pela minha voz/Música doce/Gritando meu nome/Cauby! Cauby!/Cauby! Cauby!
Hoje deitado na selva /Do nosso lugar/Copacabana lá fora a rugir/Oh! Meu amor proibido/Eu te vejo chegar/Música doida/Carícias no ouvido/Cauby! Cauby!/Cauby! Cauby!/Cauby! Cauby!”
A letra dessa canção que Caetano Veloso escreveu nos anos 80 especialmente para Cauby Peixoto, morto no último domingo,15, faz alusão ao nome próprio de origem tupi. Fora escolha do pai, que nomeara os cinco mais velhos seguindo o mesmo parâmetro indígena: Aracy, Moacyr, Andyara, Arakén e Iracema. Todos músicos como a mãe, que tocava bandolim, e o pai, que tocava violão. Música era o que não faltava à família Peixoto ; entre seus parentes encontravam-se o célebre compositor Nonô e o não menos famoso cantor Ciro Monteiro.
Na relva ou na selva poéticas e lúdicas; em Niterói, terra natal; em São Paulo, onde começou; em Nova York que o viu cantar com seu ídolo, Nat King Cole; no Rio, quando voltou definitivamente ao Brasil, Cauby Peixoto foi o artista maior, consciente de seu talento, construindo sem cessar sua carreira, dedicado o tempo todo à arte que o consagrou. De 1951, ano do primeiro disco, a 2015, data do último, foram mais de 60 anos e 200 gravações que sinalizaram uma carreira de altos e baixos mas sempre em construção, conforme podemos rever agora, diante da leitura definitiva que só a morte autoriza.
Tendo começado com compositores brasileiros pouco expressivos, cantando versões para o inglês (Maracangalha, de Dorival Caymmi) e traduções para o português (Blue Gardenia), em idas (e vindas) aos Estados Unidos, ganhou passaporte para a fama com a música que estaria para sempre vinculada à sua voz e interpretação: Conceição, de Dunga e Jair Amorim. Ela fez parte da trilha sonora do filme Com água na boca, onde Cauby atuou, e projetou o nome do cantor de voz possante e aveludada de forma avassaladora e definitiva. A história da ingênua moça do morro seduzida pelo homem da cidade ganhou o Brasil. Naquele já longínquo 1956, a voz de Cauby levava emoção aos brasileiros dos mais distantes rincões. Pelas ondas do rádio, o veículo que lhe permitiu tornar-se conhecido e amado pelas mulheres sobre quem exercia enorme atração, Cauby Peixoto se impunha e ampliava espaços. Os programas de auditório à época, o mais importante deles comandado por Paulo Gracindo, ajudaram a ampliar o fascínio pela voz belíssima e interpretação peculiar. A televisão, veículo para o qual ele soube migrar na hora certa, redimensionou o artista que era também um ator quando se colocava diante de uma câmera. Ele vestia o espírito da música que cantava.
Cauby tinha ainda a seu favor a beleza e o carisma. Era um homem bonito, afável, cordial no exato sentido do termo, amigo leal- sua parceria com Ângela Maria é emblemática de temperamento e caráter. Por conta de qualidades assim singulares, dele disse o roqueiro Supla no velório que aconteceu no halll da Assembleia Legislativa de São Paulo: “era um ser humano que só falava de sentimentos”. Ou seja, uma presença inusitada no mundo artístico, onde as vaidades costumam comandar ações e gestos apequenados. Era um gentleman, sempre, a inspirar suas fãs. Por isso foram milhares as Conceições anotadas nos cartórios de registro civil nos anos 50 e 60. As mulheres que cantavam a música levavam o título para o nome das filhas. Na faixa etária dos sessenta e poucos, algumas delas falaram sobre esse fenômeno nos programas e nos textos com que a mídia homenageou Cauby durante a semana que se finda. “Tantas mulheres febris/ Loucas pela minha voz”, pela performance, pelo brilho que chegava às roupas e singularizava, vieram a público declarar seu amor ao artista.
Se por acaso tivessem me perguntado alguma coisa a respeito, eu gostaria de ter dito que Cauby fez parte da minha infância, da minha juventude, da minha vida adulta. Embora não me chame Conceição, minha mãe também era fã de Cauby Peixoto. Gostava de ouvi-lo no rádio, que retransmitia os programas de auditório da Nacional do Rio de Janeiro. Ela parava por instantes o seu ofício de costureira quando o ouvia cantar. Que voz!- ela dizia. Que interpretação!- se admirava.
Se na infância eu ouvia Conceição e ficava fazendo ficção sobre aquela narrativa sentimental e um tanto trágica, na adolescência o que me pegou foi um disco de guarânias, boleros e sambas-canções que levava para as brincadeiras domingueiras em casa de amigos- Cauby para ouvir e dançar. Decorei aquelas letras. E depois, já adulta, seja lá o que isso signifique, ficava literalmente hipnotizada diante da interpretação de Bastidores, composta por Chico Buarque especialmente para Cauby. Reiteradas vezes ele afirmou a entrevistadores que ao interpretá-la era como se alguém extraordinário encarnasse nele. Nestas ocasiões, revisitado por fortes emoções, ele impressionava ao reproduzir à capela os versos iniciais: “Chorei, chorei/ Até ficar com dó de mim/ E me tranquei no camarim/ Tomei o calmante, o excitante/ E um bocado de gim...”
Um nome pode traduzir a pessoa que o porta. No idioma tupi, Cauby significa “folhas azuis”. Elas são raras na natureza. Assim como raro foi o artista que nos deixou aos 85 anos, cantando até o fim, pois como dizia, “gosto tanto de cantar, que se não recebesse para fazer isso, eu pagava”. Declaração mais apaixonada à música, ao palco, aos fãs, à vida- haverá?
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