Desejo, o motor do psiquismo, da alma, esta camaleônica misteriosa em seus desígnios. Misteriosa nas origens que plasmam ações interiores e exteriores. Nem sempre sabemos do dinamismo mais íntimo, do que medra nas sombras, esconso da percepção direta.
Debaixo de sete véus, o desejo. A coisa enreda, quando desejamos mudança: começa uma enormidade de turbulências de toda ordem.
Mudança pressupõe ficar sem o chão – conhecido - trilhado até então. Decidir o rumo, ou se deixar levar sem rumo, desaguar em outros rios. Saber cruzar as margens, inventar a terceira margem do rio. Flutuar entre nuvens e estrelas: reconhecer miragens e quimeras. Encontrar o peso do imponderável, as filigranas do impossível possível. Navegar sem garantia de porto seguro. Confiar nos fortes ventos e nas calmarias. Sustentar as brasas, quando não há lenha à vista.
Mudar é para fortes:
“Deus mesmo, quando vier, que venha armado!” “O sertão é do tamanho do mundo.” “Sertão é dentro da gente.” “O sertão é sem lugar.” “O sertão não tem janelas, nem portas.” “E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa” “O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena.” “O sertão é uma espera enorme.” (Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas)
E assim é o sertão da alma-só. De só-alma. Esse “sem lugar” e “sem tempo”, “sem janelas, sem portas”, onde se espera o infinito. E, no entanto, há que esperar. Esperar sem saber o que se esconde nas trevas: maldição ou bendição.
Há que ter resiliência.
Mortes, separações, uniões, distanciamentos, aproximações, justaposições, divórcios e impeachments. Mudanças. Terríveis. É o diabo no meio do redemoinho: emoções não vêm puras, mas misturadas, em gororoba difícil de digerir se não se atenta para cada uma, feito ingrediente singular para artimanha de receita sofisticada.
Querer o desejo é exercício da vontade, da determinação, da disciplina. Quanto macaco cai do galho, quando desvelados os véus do desejo. A clara luz demanda trabalho: persistência e flexibilidade. Teimosia nessa hora é certeza de quebra-quebra. Ter força não é sinônimo de bruteza. A hora, se certa, vira muda, caule, folha-flor-fruto-semente. E o chão conhecido que, na mudança, se torna desconhecido, vira conhecido de novo, até o próximo desejo.
O problema é saber se a querência do desejo tem parte com Deus ou com Diabo. Na prova dos nove: desejo de crescimento ou desejo de queda?
Haja sabedoria para o tempo demudado, para o lugar transfigurado. Saber o terreno de plantio e a atmosfera para a fecundação. Vingar a palavra, vivente, viveiro de tantos quantos pássaros.
Haja fé no que virá sem pedir licença, apesar do desejo, apesar de tudo, apesar de mim.
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