Ao ser afastada temporariamente da presidência da República, na manhã de ontem, a presidente Dilma Rousdeff (PT) mais uma vez demonstrou a visão torta que, ao lado dos poucos aliados que lhe restaram, tem do Brasil e de suas instituições. Afirmando ser vítima de um golpe, reprisou os discursos feitos nos últimos tempos, insistindo que os quase 54 milhões de eleitores estão sendo prejudicados já que o governo que toma posse não teve votos. Justamente aí começa a ópera bufa protagonizada pelos petistas, como se ignorassem que os votos de Dilma também elegeram Michel Temer (PMDB), o vice que assumiu a presidência ontem. Dilma se esquece de que a democracia não é simbolizada pelo voto popular. Ao insistir que o processo de impeachment é golpe, questionando sua validade, ela mais uma vez ignorou as instituições que fazem do Brasil um Estado democrático de direito -- e que chancelaram o processo que culminou com o seu afastamento.
Ainda nos dois discursos feitos depois de deixar o cargo, Dilma repetiu a tática que a levou ao segundo mandato, insistindo no discurso do medo, afirmando que as conquistas sociais dos últimos treze anos serão abandonadas. À tarde, ao empossar seus ministros, Michel Temer voltou a repetir que não há intenção de abandonar os programas sociais. A presidente afastada culpou ainda a oposição pelo caos político e econômico em que sua própria incompetência mergulhou o Brasil. Ela acusou os oposicionistas de ‘mergulhar o País na instabilidade para tomar à força o que não conquistaram nas urnas’. Dilma deixou claro ao longo de todo o discurso que não reconhece a letra da Constituição que estabelece o impeachment -- e as instituições que a fizeram ser cumprida. Embora o rito do impedimento tenha sido estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal e o processo conduzido pela Câmara e pelo Senado — cujos integrantes também são eleitos pelo voto popular —, Dilma negou sua validade.
A petista discursou em ambiente claramente planejado para disfarçar seu isolamento: cercada de ex-ministros e por parlamentares do que restava de sua base. Embora tenha falado em resistir, ao longo de todo discurso a presidente deu mostras de que nem ela própria crê no seu retorno ao Planalto: embora, a rigor, só comece agora o julgamento do mérito do impeachment, todos os verbos de seu discurso falavam de um governo que já acabou. O desânimo dos aliados também leva à mesma conclusão. Dilma deixa a chefia da Nação de forma melancólica, principalmente por causa das promessas que deixou de cumprir, como uma série de reformas capazes de impedir que o País chegasse à crise que hoje afeta a produção e o emprego, temas caros ao brasileiro.
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