Gilmar Dominici acordou cedo ontem. Às 6 horas, já estava diante da TV em sua casa, na Asa Norte de Brasília, para assistir aos instantes finais da votação do impeachment de Dilma Rousseff no Senado. Subchefe da Secretaria de Assuntos Federativos da Presidência da República, o ex-prefeito de Franca mora a cinco quilômetros do Palácio do Planalto, onde despacha no quarto andar. O gabinete presidencial fica no andar de baixo. Ao lado do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, seu amigo de longa data, Dominici testemunhou de perto os últimos passos da presidente na sede do governo federal, antes do afastamento forçado. “Foi um momento muito triste.”
Foi um dia diferente, com indisfarçável clima de despedida. Dominici chegou ao Palácio do Planalto por volta das 8h30. O movimento de aliados da presidente e de jornalistas era intenso. Ele deu uma passada rápida em sua sala, checou a agenda de compromissos do dia, despachou com prefeitos e, logo depois, desceu para o terceiro andar, epicentro da crise, local onde estava concentrado o núcleo duro em torno de Dilma nos minutos que antecederam a queda. “Eu fiquei na antessala do gabinete presidencial, junto com ministros e deputados. Por volta das 11 horas, a presidente se dirigiu para o Salão Leste, onde fez o pronunciamento. Como estava muito lotado, não consegui entrar. Acompanhei do lado de fora, junto com outras autoridades.”
Dominici não falou com Dilma, mas notou que ela estava abatida. “Ela estava muito triste mesmo, dava para perceber isso pelo semblante dela. A Dilma é uma mulher séria, honesta e dedicada. O afastamento dela da presidência foi um processo agressivo. Sair desta forma do governo é muito triste.”
Ao final do pronunciamento, acompanhou a presidente na caminhada até a Praça dos Três Poderes, onde ela discursou para defensores de seu governo. No local, encontrou-se com Lula, seu amigo desde o começo da década de 1980. “Ele estava muito emocionado. Percebi que chegou a chorar. Estava muito triste mesmo.”
Foi pelas mãos de Lula que Dominici chegou ao governo federal. Era fevereiro de 2007, quando ele começou a trabalhar na Secretaria de Assuntos Federativos. É o encarregado de fazer a articulação do governo federal com Estados e municípios. Ele não sabe se continuará no cargo com o afastamento temporário da presidente. “A permanência não depende de mim, estou aguardando. É provável que o novo ministro faça mudanças na equipe. Acho que posso sair sim.”
Na tarde de ontem, Dominici ainda estava empregado e participou da solenidade de encerramento da 19ª edição da Marcha dos Prefeitos a Brasília. Encerrou a entrevista por telefone ao Comércio em tom de despedida. “Eu fico muito grato e honrado por ter participado do governo federal, neste período todo aqui, e contribuído para ajudar o país e os municípios. Conseguimos muitos avanços.”
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