Caso não tenha ocorrido um revés inesperado na sessão do Senado que votou a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff (PT), que entrou madrugada adentro, o novo governo comandado pelo até ontem vice, Michel Temer, terá uma série de desafios a enfrentar daqui pra frente. O principal, a profunda crise econômica que paralisa o País, necessita de medidas duras, como a redução do peso da máquina administrativa federal e o consequente corte nas despesas correntes. Além disso, terá que fazer o Brasil reconquistar a confiança perdida junto aos investidores e retomar o crescimento prejudicado por uma política econômica temerária. A crise institucional será ainda mais difícil de resolver, já que passa pelas decisões da Justiça quanto aos parlamentares e políticos acusados de corrupção. Com isso, a configuração do Congresso Nacional poderá ser profundamente modificada.
O Brasil, hoje, já conta com mais de 10 milhões de desempregados, conforme dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) apurados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgados há alguns dias. Com isso, o setor produtivo registra uma estagnação que tem atingido todos os setores, desde a indústria, passando pelo comércio e chegando ao agronegócio. Para se ter uma ideia do tamanho da recessão no âmbito empresarial, basta ver que cerca de 1,8 milhão empresas fecharam as portas no País durante o ano passado. Esse número engloba companhias de todos os tamanhos e setores da economia, inclusive dados de microempreendedores individuais. O resultado (apurado pela Neoway, consultoria especializada em inteligência de mercado) é mais que o triplo do que foi registrado no ano anterior.
Em consequência disso, quase a metade das negociações salariais fechadas em todo o País no primeiro trimestre deste ano nos setores de indústria, comércio e serviços teve reajuste abaixo da inflação. Essa piora foi detectada por um levantamento preliminar feito pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Das 102 negociações fechadas entre janeiro e março, 49% obtiveram reajustes abaixo da inflação apurada pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) e a maioria registrou queda real de até 1% nos salários negociados em acordos coletivos. Como se pode ver, Michel Temer precisará incorporar uma coragem comparável à do ex-presidente Itamar Franco, que assumiu após o impeachment de Fernando Collor, em 1992, e conseguiu estabilizar os números da economia com a criação do Plano Real. Oxalá o novo presidente consiga corresponder aos anseios e expectativas do povo brasileiro.
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