Franca, Vila Aparecida, Varejão Irmãos Patrocínio. O ano era 2012, uma manhã de segunda-feira. Funcionários relatavam ao empresário Gilberto Patrocínio, um dos sócios da rede de varejões, que furtos diários estavam acontecendo. E sempre de forma semelhante, praticados pela mesma pessoa: um desempregado de 38 anos, usuário de drogas, que entrava nas lojas e subtraía peças de maior valor, como salames, bebidas alcoólicas e queijos provolones.
Segundo o empresário, o desempregado furtava todas as lojas da rede. Mas seu alvo preferido era a unidade da Vila Aparecida. “Na sexta-feira antes de ser pego, ele roubou 20 salames italianos que, na época, totalizavam R$ 500. Conseguiu fugir depois de empurrar minha filha e uma funcionária. No sábado, ele voltou e levou uma cesta repleta de provolones. Eu vi nas câmeras de segurança que era o mesmo sujeito nesses dois furtos e em outras ocasiões”, disse.
Na semana seguinte, Gilberto, um segurança e outro funcionário do varejão surpreenderam o ladrão, que voltou à loja para furtar mais comida e trocar por drogas. Eles o pegaram e o trancaram em uma sala. Ainda de acordo com o empresário, não houve agressão mas, por ele ter sido segurado até a chegada da Polícia Militar e ter sofrido escoriações leves, passou a acusar Gilberto de tortura.
As partes foram levadas ao Plantão Policial e o desempregado foi liberado sob acusação de tentativa de furto. Mesmo assim, não teria parado de pegar objetos dos varejões. O inquérito prosseguiu e de vítima, Gilberto transformou-se em réu. “O ladrão entrou nas minhas lojas, pegou os produtos e eu que me transformei no réu. Fiquei revoltado. Não tinha cabimento. Trabalho desde pequeno. Nunca precisei roubar nem furtar ninguém e, de repente, eu que passo a ser investigado”, recordou.
Em 2014, os furtos praticados pelo desempregado continuavam em meio à condenação de Gilberto. Deveria pagar 50 salários mínimos, que, na época, totalizava cerca de R$ 70 mil, ao Estado. A pena prevista era de três anos e quatro meses por tortura, mas seu advogado, Adauto Casanova, recorreu. De tortura, a acusação transformou-se em lesão corporal leve. “Trabalhei no caso para mostrar que estava acontecendo uma inversão de valores: a autodefesa pode tornar um cidadão de bem em réu. Não falei de Direito, de leis, nada disso. Mostrei ao juiz, ao relator do processo e ao procurador que não houve agressão e a acusação foi retirada”, disse.
No dia 29 de abril deste ano, uma nova audiência aconteceu na 6ª Câmara Criminal. A absolvição do empresário veio e ele foi inocentado de qualquer acusação feita. A decisão foi comemorada por Gilberto, que continuou sendo vítima do desempregado. “Mesmo depois de tudo isso, ele prosseguiu furtando minhas lojas. Ia na Estação, na avenida Brasil, nessa da rua São Paulo... Se tivesse sido torturado, não teria ressurgido. Ele só parou há um ano. Isso porque já tinha sido preso outras vezes e condenado. Diante da decisão judicial, estou aliviado. A verdade veio à tona.”
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