Ele mora sozinho.
Vive lá no meio da imensidão. Lá longe, onde terminam todos os caminhos. Lá no pé da encosta, quase na divisa da furna, onde brotam filetes de água que serão córregos que alimentarão longínquos rios e, depois de uma eternidade, beberão água salgada.
Lá, em esquecidos longes, em casinha caiada de branco, vive o operário.
Dia após dia – a vida inteira – depois do lusco-fusco, os lampiões da natureza iluminam o terreiro, acendem o instrumento aninhado no colo do homem sentado sempre no mesmo tronco de árvore.
Pálpebras semicerradas, qual mãe distraída a amamentar rebento, o homem dedilha cordas.
Dedilha e passeia.
Dedilha e passeia conscientemente pelo coração de todos os homens. Dedilha, e passeia, e labora projetos – muitos projetos.
Os acordes semelham balões coloridos que se alçam até as nuvens, somem, viram enfeites de astros.
O passeio só termina quando as sirenes do alvorecer estridulam nos pontos cardeais, anunciando hora da labuta. Então, alma restaurada, a mão rude do homem descansa o violão e empunha sua enxada.
Parte para a lide.
Inclina-se sobre a mesa, sobre o tamborete, sobre o banco de madeira e cumpre sua sina: empilha vocábulos, vírgulas, reticências... Empilha e cola com a sensibilidade todas as peças. Não satisfeito, amarra tudo com o barbante da fé – crença inquebrantável no homem e no amanhã.
Dia após dia – a vida inteira – o operário cumpre a sua sina de erguer castelos, de levantar catedrais.
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