Aprendi a prestar mais atenção às preguiças depois de A era do gelo, pois ao levar meu neto para assistir aos três filmes da franquia, fui desvelando com ele aspectos daqueles animais que até então ignorávamos. O protagonista do desenho, Sid, de quem as crianças gostam tanto, nos motivou pela simpatia e decidimos pesquisar sobre a espécie. Foi assim que entramos neste grande oráculo da era digital- o Google.
Descobrimos que há motivos de sobra para que as preguiças, cujo habitat insere-se apenas em algumas regiões das Américas do Sul e Central, despertem ternura nos pequenos e em alguns de nós, adultos que não deixamos nossa alma envelhecer. Em primeiro lugar, aqueles longos braços felpudos parecem feitos para o abraço: tem gesto mais reconfortante que esse? Depois, há as características peculiares que deflagram nosso riso mais franco, como a capacidade de girar a cabeça até 270°sem mexer o corpo; os movimentos lentíssimos que os desenhos exploram ao nível do melhor humor; o hábito de dormir até 14 horas ininterruptas penduradas de costas para o chão, lembrando rede. E as garras enormes, bem calcificadas, ferramentas imprescindíveis para subirem pelos troncos, manterem-se fixadas nos galhos e colher alimentos. “Muito estranha a preguiça, e muito quietinha também, né vovó?- observava João.
Silente e solitária, pedindo tão pouco para sobreviver, nem água ela precisa tomar: hidrata-se com o líquido dos vegetais que ingere. E, sem perturbar ninguém, só se alimenta à noite quando se move pelos galhos em busca de sua ceia composta de folhas e frutos. Quase passa despercebida, já que se mantém por sete dias no alto das árvores, só descendo delas para fazer suas necessidades.
De vez em quando nós, os humanos, temos notícias de alguma. Em fevereiro, num lugarejo incrustado na Mata Atlântica, uma delas caiu do telhado sobre os moradores da maior das casas. Ela havia chegado ali depois de horas de deslocamento para cobrir poucos metros de distância. Perseguia uns brotos de ingazeira que avançavam por um caibro quando duas telhas quebraram e ela desabou. Causou o maior susto na família que assistia à TV na sala e muita surpresa na população local. Até um canal de TV foi acionado para registrar a cena insólita. Depois levaram a preguiça para seu lar há anos- a grande embaúba onde dera à luz um filhote, após nove meses de gestação.
Quieta e arredia, passando grande parte de seu tempo a sonhar com brotos tenros como autêntica vegetariana que é, a preguiça tem muitos predadores. Neste reino onde não há justiça, só a lei do mais forte, onças, harpias e algumas cobras estavam até há três semanas entre os mais conhecidos e letais. Foi no fim de março que outro deles apareceu e fez algo abominável na pequena cidade de Barra do Choça, no sudoeste da Bahia. Fulano de Tal, 54, cujo nome não pôde ser divulgado, identificou grande preguiça na alta copa de uma figueira. Removeu-a de lá, levou-a para sua casa e usando uma serra arrancou com requintes de perversidade as garras do animal. Caapora, o guardião de todas as matas, devia estar fora da cena, pois não ouviu os gritos de aígue, aígue, aígue, o som onomatopaico com que os índios tupis batizaram o animal. Mas os vizinhos do celerado escutaram e ficaram de tal forma indignados que chamaram a polícia. O homem foi preso em flagrante e a preguiça, sangrando muito, levada ao Centro de Triagem de Animais Silvestres, em Vitória da Conquista. Cuidada pelo veterinário Aderbal Azevedo Alves e mantida em observação por vários dias, mostrou lenta recuperação. Segundo o especialista, deveria ficar mais tempo no Centro, mas preguiça não se alimenta em cativeiro e aquela corria risco de morrer por inanição. Levada para a mata por biólogos, foi deixada em liberdade. Viu-se então que conseguia arrancar brotos de tararanga com a pata esquerda, que havia escapado da sanha bestial do homem. Este, apresentado à delegada Gabriela Vieira, foi instado a dizer por qual motivo praticara tal barbárie. Dando de ombros, respondeu: - “Porque quis!”
Ao ler isso eu me perguntei quem de fato seria o bicho nesta história de horror. E imaginei que o mal em seu estado bruto teve ali uma representação perfeita. Também pensei que há selvagens dentro de cada um de nós e devemos ter cuidado para que não saltem para fora e nos dominem.
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