Ver a casa invadida pela água e lama, móveis e eletrodomésticos serem levados pela enchente e ter medo de perder a própria vida. O drama é vivido por pelo menos cinco famílias de Franca que assistiram, às vezes em mais uma ocasião, suas residências serem inundadas durante as chuvas. Os temporais registrados na cidade nas últimas semanas elevam ainda mais a tensão desses moradores, que se sentem desassistidos e à mercê da própria sorte.
Quatro dias após a forte chuva que fez o muro desabar, a lama ainda podia ser vista nos cômodos e eletrodomésticos na casa do pintor José Garcia Garcia, de 66 anos. Durante a última semana, ele ainda contabilizava as perdas causadas pelo temporal do dia 25 de março, Sexta-Feira da Paixão. O fogão, freezer, uma máquina de pintura, a moto, o sofá e um guarda-roupas foram cobertos pela lama e somam, segundo estima o José Garcia, mais de R$ 1.300 de prejuízo.
O momento da inundação ficou marcado na memória da família Garcia. “Eu fui ajudar o vizinho que estava com problemas com a enchente, quando ouvi um estrondo muito forte e vi que o muro do meu quintal havia desabado”, disse o pintor. “A água veio com força e não deu tempo de salvar quase nada, até a cachorrinha, que estava no quintal, quase foi levada na enchente”.
O imóvel é financiado e ainda restam oito anos de parcelas a serem quitadas. A família espera ser ressarcida das perdas causadas pelo temporal e pretende procurar um advogado, se for necessário, para acionar a Justiça. “A gente paga todos os impostos, temos nossos direitos. Atrás daqui, a propriedade é da Prefeitura, a responsabilidade vai ser dela porque vai ter que fazer a galeria de água”, disse o filho de José, Tarlei Martins Garcia, 29.
Em outro ponto da cidade, a chuva e infraestrutura precária também trouxeram estragos e tristeza nos últimos dias. A moradia do pedreiro Paulo Sérgio Batista, 46, próximo ao Córrego Engenho Queimado, precisou ser interditada, na terça-feira passada, por risco de desabar. A casa fica à beira de um barranco e está com as paredes tomadas por rachaduras. A área do córrego registra pontos de erosão e já provocou desabamentos de parte dos terrenos das casas vizinhas. Até existe um projeto de revitalização para o local, mas as obras, já atrasadas, só devem ser concluídas em 2017. “Minha casa já estava trincando o muro e o chão da varanda, aí a parede desbarrancou com a chuva na Sexta da Paixão. Estou colocando minhas coisas nos vizinhos, vou ter que procurar outra casa, mas não vai ser fácil deixar tudo que construímos aqui”, disse o morador.
Com a queda do muro, um pilar contendo um cano da rede de esgoto despencou e contribuiu para agravar o problema. A Sabesp assumiu os reparos no local, mas para fazê-lo precisou derrubar por completo o muro. O pedreiro morava com mais quatro pessoas e disse que gostaria de poder voltar para o imóvel, o que depende da conclusão dos reparos para ser feita uma nova avaliação da residência, que é alugada.
Drama semelhante
No Jardim Palestina, rachaduras também comprometem pelo menos duas casas, uma delas foi interditada. Os moradores já sofreram quatro vezes com a invasão de água nos imóveis.
O DJ André Caetano, 27, se prepara para o caos a cada chuva. Nos últimos meses, água e sujeira subiram cerca de 50 centímetros, invadiu residências e transformou a rua em um verdadeiro rio. Um marcador do ponto de ônibus ficou praticamente encoberto. “Aqui tem bocas de lobo, mas elas são próximas umas das outras e têm a mesma vazão, aí não aguentam a água que desce do bairro inteiro”, disse o DJ.
Além das perdas materiais, o morador teme contaminação por causa dos dejetos trazidos pela chuva. “Tenho filho pequeno, quando entra água, não aguentamos o fedor de esgoto que fica”, afirmou.
A casa vizinha foi interditada em janeiro, mesmo assim a moradora ficou um tempo no local porque não tinha para aonde ir. “Lá começou a ter rachaduras e o quintal foi afundando, agora estou morando de aluguel no bairro São Luís”, disse a dona de casa Divina Silveira Santos, 54. “A casa interditada era avaliada em R$ 155 mil, estava financiada e a gente pagava com muito esforço”, disse.
A rua Oscar Louzada, no Jardim Califórnia, é outro ponto recorrente de alagamento. Nesse endereço, uma das residências, que fica em um nível abaixo da calçada, também foi tomada por água e lama no dia 25 de março. “A Prefeitura não quer assumir a responsabilidade, mas a falta de bocas de lobo nas ruas de cima causam inundações aqui”, disse a moradora Maria Aparecida Beloti, 75.
Especialistas afirmam que as características do solo francano e falta de planejamento na aprovação e construção dos imóveis favorecem os problemas gerados pelas chuvas. A Prefeitura foi acionada, mas não se manifestou a respeito dos danos causados para moradores em diferentes bairros da cidade (leia abaixo).
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