O mecânico Chafic Antônio Assis, 69, não parava de beber enquanto restava uma lata de cerveja na geladeira ou uma dose de pinga no balcão de algum boteco. Era viciado no álcool e não conseguia controlar a vontade de curtir uma cachaça com os amigos. Foi assim, num feriado de 7 de setembro, quando virou a noite na farra. Três décadas já se passaram e, até hoje, ele não se esquece daquela bebedeira.
Foi a última vez que colocou um gole de álcool na boca. Há 36 anos, passa longe de bebidas. Neste período, ocupou todos os cargos diretivos do AA, o grupo de Alcoólicos Anônimos. Coordenador da Pastoral da Sobriedade, Chafic deixou o anonimato para contar sua história e incentivar outras pessoas a tomarem a mesma decisão que mudou sua vida.
O que levou o senhor a parar de beber?
Eu decidi entrar para o AA através de um convite feito por um amigo. Quando fui na reunião, aceitei, admiti e descobri que sou um doente alcoólatra. Eu bebia um dia sim, outro também. Caminhava a passos largos para o fundo do poço.
Quando a pessoa percebe que a bebida deixa de ser um prazer e se torna um problema?
A partir do momento em que ela começa a ter atritos com a família, no trabalho e com os amigos. Também quando começa a chegar fora de hora em casa, quando deixa faltar as coisas no lar, vê que o dinheiro não está dando e não aceita as cobranças da esposa. Essas são as razões para que o alcoólatra veja que está exagerando na bebida.
O senhor se recorda com exatidão do último dia em que ficou alcoolizado. Como foi?
É uma data que eu nunca vou me esquecer: 7 de setembro de 1980. Feriado nacional. Para o alcoólatra, tudo é motivo para ele festejar. E a festa do alcoólatra nada mais é do que beber, beber e beber, principalmente, quando está com os amigos. Juntamos alguns amigos, saímos de Belo Horizonte e fomos para a cidade de Sete Lagoas. Fizemos churrasco e bebemos ouvindo música. Quando vimos, já eram duas horas da madrugada. Voltamos para Belo Horizonte. Graças a Deus, não teve nenhum acidente, mas o triste no outro dia foi a bendita da ressaca e o prejuízo no bolso. Isso foi do dia 7 para 8 e, até o dia 11, eu estava sem beber. No dia 11, recebi o convite para ir para o AA.
Aceitou na hora?
Na verdade, o convite não foi para eu ir para o AA. Meu amigo disse que seria uma reunião qualquer. Eu o tinha chamado para beber e ele disse que não queria. Ele, simplesmente, disse que estava indo na cidade em uma reunião e me chamou para ir com ele. Eu fui de vergonha, mas Deus sabia o que estava fazendo naquele dia. Hoje, eu sei que foi o dia D, que mudou minha vida. O dia do despertar espiritual. Felizmente, funcionou.
O senhor conta que, ao sair da primeira reunião do AA, passou em um lugar pouco apropriado para quem havia acabado de decidir que não beberia mais: um bordel. Como foi?
Saí do grupo e passei no ‘inferninho’, ou melhor, filial do inferno. Era um ambiente, na avenida Pedro II, por sinal era um lugar central em Belo Horizonte, onde tinha de tudo, muita boemia. Periodicamente, a gente passava lá, bebia umas pingas, tomava cerveja, ouvia música, se divertia e assim por diante. Eu já era bem conhecido no local. Naquele dia, eu passei lá e, em tom de brincadeira, falei para eles que, a partir daquele dia, eu não iria beber mais. Ninguém acreditou. Enchi a cara, mas foi de refrigerante. Tomei uns cinco.
Trocar a cachaça por refrigerante foi a prova de que o senhor estava, mesmo, disposto a se afastar do álcool?
Emocionalmente, eu acredito que sim. As emoções mudam a cada instante até que a gente se sinta frustrado e decepcionado. Neste ponto, eu acreditava naquele momento que eu estava falando a verdade para mim mesmo. A surpresa foi quando cheguei em casa e falei para a esposa que eu tinha decidido parar de beber. Ela balançou o ombro, não acreditou. Eu já havia feito mais de mil promessas e nenhuma havia sido cumprida. Só que, daquela vez, era verdadeiro e funcionou. Já faz 36 anos e, até hoje, a gente não fez uso de nenhuma gota de cerveja sequer.
Como se comporta quando está com algum amigo ou em festa familiar que tenha cerveja ou outras bebidas alcóolicas?
Normal. Tranquilamente, sem nenhuma emoção ou reação. Às vezes, fico triste de ver as pessoas que estão exagerando na bebida e a família fica envergonhada. Mesmo já estando embriagada, a pessoa se recusa a parar de beber, sem levar em conta os problemas que pode causar, como provocar acidente na hora de voltar para casa.
Sente falta do álcool?
De forma nenhuma. Convivo com o álcool, ganho bebidas. Ou jogo fora ou repasso para alguém que eu sei que é um bebedor habitual, que não terá problema. A maioria das pessoas sabe que eu não bebo e, então, se limita a me oferecer refrigerante.
O que é o alcoolismo para o senhor?
No AA, temos um livro interno nosso, que diz que o alcoolismo é uma doença que todos escondem. Como membro de AA, eu admiti que sou um doente alcoólatra. Jamais eu posso dizer que qualquer outra pessoa seja doente. Quem pode diagnosticar é o profissional da área. Mas, a partir do momento que admiti ser um doente alcoólatra, minha sobriedade foi reforçada.
O senhor acredita na expressão: eu bebo socialmente?
A verdade, sem maior esclarecimento, não. Existem quatro tipos de bebedores, que são o social, ocasional, habitual e o inveterado. O maior advogado do álcool é o próprio bebedor. Ele defende tomar uma, mas, atrás dessa uma, já foi uma garrafa. Quem bebe uma, duas e consegue controlar, consegue parar, é um bebedor de ocasião, não é o contumaz, como foi meu caso. Cada indivíduo sabe o grau de alcoolismo que o está prejudicando. Ele sabe, sim, tanto é verdade, que as pessoas vão se abrindo num bate-papo e admitem que estão exagerando, que precisam dar uma maneirada. A gente sugere que as pessoas procurem um profissional, que procurem Deus, que procurem uma religião, porque nem todos são iguais.
Há uma estimativa de quantas pessoas ajudou a livrar do vício do álcool nestes 36 anos em que atua no AA?
É difícil precisar, pois é uma estrada muito longa em que estamos caminhando há décadas. Há determinados fatos que deixam marcas e a gente nunca esquece. Um caminhoneiro, amigo da gente, estava constantemente alcoolizado. Eu convidei esse moço várias vezes para frequentar um grupo de AA. Um dia, ele aceitou. Chegando lá, ele entrou, sentou-se e abaixou a cabeça entre as mãos. Só levantou quando terminou a reunião. Saímos e, antes de entrar no caminhão, ele disse para mim: ‘o dia que você beber, eu bebo’. Convivemos por mais algum tempo e ele nunca mais bebeu. Sempre encontro pessoas que agradecem por estar sóbrias e por ter conseguido reabilitar a família. Este é o nosso propósito: transmitir a mensagem a um alcoólatra que ainda sofre. Temos o grupo do Alanon, que são os familiares dos alcoólatras, onde as esposas aprendem a conviver com seus maridos e buscam ajuda. Também chegamos a implantar um grupo para os filhos, que não existe mais. É uma situação muito delicada. Há casos em que os filhos, envergonhados com a bebedeira, pedem que o pai morra, que seja atropelado. O estrago do álcool nas famílias é devastador. Hoje, como a liberdade dos adolescentes é muito grande, não há limites. A coisa está desenfreada. É preciso investir na estrutura familiar.
Qual é o perfil do frequentador do AA. Há jovens ou apenas pessoas mais velhas?
É difícil convencer jovem a frequentar as reuniões. A faixa etária mais comum está em torno de 25 a 30 anos para cima. Há 15, 20 anos, a safra de frequentadores era mais jovem. Hoje, é uma safra mais velha. Por meio da Pastoral da Sobriedade, da qual sou coordenador diocesano, quando temos informação da família que tem um jovem se desvirtuando, o grupo de jovens da igreja tenta aliciar esse jovem para o bem. Temos o grupo Projeto Vida, que foi criado há 15 anos, onde é feito teatro sobre prevenção e encaminhamentos.
Quantos alcoólatras frequentam os grupos de AA existentes em Franca?
Temos uma média de 15 a 35 membros por reunião. A quantidade de pessoas aumenta mais aos sábados e domingos. Nas reuniões festivas de aniversário dos grupos, o número é maior. Acredito que temos cerca de três a quatro mil membros que foram beneficiados pelo AA em Franca. Muitas pessoas vão, se reabilitam e seguem suas vidas. O índice de recuperação é positivo, chuto que seja em torno de 80%. O alcoolismo não tem cura. O vício pode ser estagnado, mas, se a pessoa não seguir a sugestão “evite o primeiro gole e frequente as reuniões”, certamente, terá recaída. Há muitas tentações, o capeta está solto.
Qual a orientação que o senhor dá para quem tem o problema do alcoolismo hoje em casa e que precisa de ajuda?
A pessoa pode ligar para o 3724-4954, que eu encaminho, ou para o telefone do AA, que é o 3724-2445. De acordo com a solicitação do pedido, será encaminhada a orientação. Fazemos uma triagem antes da pessoa ser abordada. Cada caso é um caso. Infelizmente, as pessoas procuram ajuda quando já estão num grau de decadência elevado. Nós não temos dia, nem hora. Alguém que pede ajuda, será atendido. Não nos omitimos em momento algum. Jamais deixamos de fazer uma abordagem, pois sabemos as consequências e o dolorido que é uma família que tem um alcoólatra.
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