"Da caverna aos arranha-céus, do garrote às armas de destruição em massa, da vida tautológica da tribo à era da globalização, as ficções da literatura multiplicaram as experiências humanas, impedindo que nós, homens e mulheres, sucumbamos à letargia, ao egoísmo, à resignação. Nada semeou tanto a inquietação, perturbou tanto a imaginação e os desejos, quanto esta vida de mentiras que acrescentamos à vida que temos, graças à literatura, para protagonizar as grandes aventuras, as grandes paixões, que a vida verdadeira nunca nos dará.
A literatura é uma representação falsa da vida que, não obstante, nos ajuda a entendê-la melhor, a nos orientarmos pelo labirinto onde nascemos, transcorremos e morremos. Ela compensa os reveses e frustrações que a vida de verdade nos inflige e graças a ela deciframos, ao menos parcialmente, o hieróglifo que costuma ser a existência para a grande maioria dos seres humanos, principalmente para aqueles de nós que alimentamos mais dúvidas do que certezas e que confessamos nossa perplexidade diante de questões como a transcendência, o destino individual e coletivo, a alma, o sentido ou a insensatez da História, as idas e vindas do conhecimento racional.
As mentiras da literatura tornam-se verdades através de nossos leitores transformados, contaminados de anseios e, por culpa da ficção, em permanente questionamento de uma realidade medíocre. Feitiçaria que, ao nos iludir que temos o que não temos, que somos o que não somos, fazendo-nos ascender a esta impossível existência onde, como deuses pagãos, nos sentimos terrenos e eternos ao mesmo tempo, a literatura introduz em nossos espíritos o inconformismo e a rebeldia, que estão por trás de todas as façanhas que contribuíram para diminuir a violência nas relações humanas. Para diminuir a violência, não para acabar com ela. Porque nossa história será sempre, felizmente, uma história inacabada. Por isto temos que continuar sonhando, lendo e escrevendo, a maneira mais eficaz que encontramos de aliviar nossa condição mortal, de derrotar a corrosão do tempo e de converter o impossível em possibilidade.”
(Trecho retirado do livro Elogio da Leitura [tradução: Larry Fernandes, 48 páginas, R$30, editora Simonsen], no qual Mario Vargas Llosa, em discurso histórico proferido na cerimônia de premiação do Nobel de Literatura, rememora sua infância como leitor, indica influências e estimula a atividade da leitura. O escritor peruano completa 80 anos neste 2016.)
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