Morreu aos 30 minutos do domingo de Páscoa, 27 de março, o advogado, agropecuarista e fundador do Conselho Nacional do Café, José Carlos Jordão da Silva. Estava internado no Hospital São Joaquim/Unimed desde a véspera, última fase de intervenção médica para controle de dor gerado por metástases de câncer diagnosticado há seis anos.
A doença foi descoberta em exames de rotina. Jordão iniciou tratamento com o especialista José Reinaldo de Paula Tasso, em Franca. Em São Paulo, nos hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, foi atendido pela oncologista Nise Yamaguti para submeter-se a técnica nova, baseada no controle da testosterona, e registrou melhoras. Com o tempo, voltou a tratar-se em Franca, com José Reinaldo e com a urologista Fabiana Ribeiro. Os médicos locais e a paulistana Yamaguti acompanharam Jordão até sua morte. A família, representada pelo filho Marcelo, considerou que o pai enfrentou a doença com qualidade de vida pela presença e competência destes profissionais.
José Carlos era filho de Carlos Jordão da Silva, fundador da Federação Espírita do Estado de São Paulo, e Maria Geralda de Macedo Jordão. Em São Paulo, casou-se com Elza Maria de Souza Barros Jordão (francana, filha de Fernando Camargo de Souza Barros e Elza Sandoval de Souza Barros).
Tiveram 57 anos de enlace, cinco filhos nascidos na capital (Fernanda Maria, casada com Márcio Lopes de Freitas, diretor executivo e ex-presidente da OCB - Organização das Cooperativas do Brasil; Carlos, empresário de importação e exportação em Itajaí, Santa Catarina; casado com Maria; Marcelo, arquiteto, casado com Dolores; Fernando Antônio, gerente de hotelaria em São Sebastião, São Paulo; casado com Denise; Rodolfo, comerciante de café, casado com Lídia), 14 netos (Márcio Filho, João Pedro, Miguel, Mariah, José Carlos Neto, Déborah, Camila, Marcelo Filho, Elza Maria, Érick, Gabriele, Stéfane, Rodolfo Filho, Gabriela), e um bisneto, Arthur.
Na capital paulista, Jordão da Silva abriu a corretora de valores Barros Jordão, tornou-se visível pelos resultados alcançados e passou a integrar, como diretor, a Bovespa - Bolsa de Valores de São Paulo. Após anos, vendeu a empresa e utilizou os recursos para comprar a Fazenda da Mata, em Itirapuã, iniciando atividades que se tornariam permanentes na produção de café de qualidade. Na sequência, vieram as compras das fazendas Riachuelo e Santa Terezinha, na mesma região.
Toda a família veio para Franca em 1997. Cafeicultor antenado, Jordão dedicou-se a pesquisas que resultaram na construção de técnica que hoje se pratica em boa parte da cafeicultura nacional. “Ele foi o pioneiro do sistema de plantio em renque mecanizado”, disse o neto Marcelo. “No sistema anterior de plantio, utilizavam-se entre mil e mil e quinhentas mudas por hectare de terra. No que ele desenvolveu, passou a plantar cinco mil e setecentas mudas, o que garantiu grande salto de produtividade (entre 8 e 10 sacas no sistema anterior e 36 sacas no novo formato); além de proporcionar melhor performance de utilização de implementos agrícolas e redução de mão de obra na hora da colheita”, disse.
Segundo o neto, o avô, conhecedor de resistências oficiais a lavouras do tipo — dizia-se que produziriam desertificação do solo — foi se aconselhar com um dos papas do melhoramento genético do café no Brasil, Alcides de Carvalho, do IAC - Instituto Agronômico de Campinas, e dele ouviu que “não acreditava em desertificação e acreditava na ideia de vovô”. Bastou. Ele deixou até de receber linhas de financiamento, mas praticou a ideia. “Os resultados foram o que ele e Alcides acreditavam. Não havia problemas. Hoje, boa parte da cafeicultura nacional se desenvolve com o sistema, mas ele não teve reconhecimento oficial algum. Ainda hoje, só agrônomos sabem que a criação e desenvolvimento do novo sistema é dele”, disse o neto.
Jordão, à vista desse e de outros problemas, passou a integrar movimentos pró fortalecimento e defesa da cafeicultura. Em uma destas ações, levou tratores para a frente de bancos protestando contra confisco de café que gerou graves problemas ao setor cafeeiro. Como extensão dessa participação, trouxe para Franca e presidiu uma filial da Cocap, cooperativa paranaense, e atraiu lideranças do setor regional, a exemplo de Márcio Lopes de Freitas e Alceu Rubens Morandini. Levou também para a cooperativa o engenheiro agrônomo Maurício Miarelli, que hoje preside a Cocapec, sucessora daquela Cocap inicial.
“Vendeu suas fazendas quando resolveu montar uma torrefação para colocar café de alta qualidade e valor agregado no mercado. Produziu o Café Jordão e sua versão gourmet, o Oikos. “O Oikos venceu concurso de qualidade e foi indicado como café oficial da ECO92, realizada no Rio de Janeiro, servido aos chefes de Estado que estiveram presentes”, disse o neto. “Meu avô sempre me estimulou muito na vida pessoal e profissional. Acreditou mais em mim do que eu próprio. Hoje integro, na condição de pesquisador, a Fundação Procafé, órgão de pesquisa pública-privada, criada pós extinção do IBC para cuidar da herança de pesquisas do instituto extinto. Devo às provocações dele a minha decisão em ser agrônomo. Foi, certamente, um dos mais destacados desbravadores da moderna cafeicultura nacional, e isso muito me orgulha, deve orgulhar a todos nós de Franca”, disse o neto.
Tem mais. Aos 63 anos, incansável, Jordão ingressou na Faculdade Municipal de Direito de Franca e especializou-se em Direito Ambiental, Empresarial e Agrário. Exercitou a profissão até o diagnóstico da doença, quando se aposentou.
Seu velório foi realizado no São Vicente de Paula. O sepultamento se deu no domingo de Páscoa, 27 de março, 16 horas, no Cemitério Parque Jardim das Oliveiras, com serviços da Funerária Tedesco. Será celebrada Missa de Sétimo Dia por intenção de sua alma no sábado, dia 2 de abril, 19 horas, na Catedral Sé de Nossa Senhora da Conceição.
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