Há dois anos, quando a expressão lava jato era referência apenas de um lugar para lavar carros, um jovem procurador da República francano foi convidado para trabalhar na operação que tinha acabado de ser criada. Naquele momento, havia notícia apenas de quatro doleiros. Dois anos se passaram. A Lava Jato tornou-se símbolo da maior operação contra a corrupção da história do país e apura um grande esquema de lavagem e desvio de dinheiro envolvendo a Petrobras, grandes empreiteiras e políticos. Nascido em Franca, Andrey Borges de Mendonça atua nas investigações como assessor do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. O nome dele, inclusive, consta da bombástica delação premiada do senador Delcídio do Amaral, que implicou mais de 70 pessoas e que fez acusações a membros do governo federal e da oposição.
Andrey tem 36 anos e atua como procurador da República há 12. Morou em Franca até sair para estudar Direito na USP, em São Paulo, quando tinha 17 anos. Após se formar, passou dois anos estudando em Franca para o Ministério Público. É irmão do promotor Yuri Borges de Mendonça, integrante do Gaeco. “Minha ideia era entrar para o Ministério Público Estadual, até mesmo por conhecer a instituição pelo meu irmão. Porém, por algumas circunstâncias, acabei nunca prestando concurso para o MP Estadual, mas sim para o Ministério Público Federal.”
O início
Em 2004, então com 24 anos, passou no concurso do MPF. Começou a trabalhar em Campinas, depois em Ribeirão Preto e Santos. Desde 2013, está em São Paulo, na Vara Especializada em Crimes contra o Sistema Financeiro e Lavagem de Capitais. Fez mestrado na Espanha. “Em 2014, no final do mês de março, recebi uma ligação do Procurador da República de Curitiba, Deltan Dallagnol, me convidando para trabalhar na então deflagrada e pouco conhecida Operação Lava Jato. Aceitei o convite e naquele momento os desafios eram enormes: havia várias denúncias a serem propostas, com diversos réus presos, com prazos muito curtos e pouca estrutura.”
Foi em uma Semana Santa, como agora, que a equipe fez as denúncias e tentou compreender o esquema envolvendo os doleiros, entre eles, Alberto Youssef. “As denúncias, ao final, foram feitas e os réus mantidos presos. Uma questão, que na época nos intrigava, era porque Alberto Youssef tinha dado de presente a Paulo Roberto Costa, ex-diretor da área internacional da Petrobras, uma caminhonete.”
Os investigadores fizeram busca e apreensão no escritório e na casa de Costa, oportunidade em que foi constatado que os familiares dele estavam destruindo provas. “Foi, então, pedida a prisão dele e tínhamos que oferecer uma denúncia sem saber ao certo por que ele havia recebido aqueles valores. Após várias discussões, entendeu-se fazer uma denúncia por lavagem de dinheiro em face dele, em razão de superfaturamentos na Refinaria Abreu e Lima.”
Até setembro de 2014, o procurador continuou investigando aqueles núcleos, até a formalização do acordo de colaboração premiada de Paulo Roberto Costa, o primeiro da Lava Jato. “Naquele momento, abriu-se todo o esquema de pagamentos de propina no âmbito da Petrobras por empreiteiras, apoio político e pagamentos de valores que hoje se desvenda.” Entre outubro e dezembro, se afastou da operação para concluir o mestrado e por conta do nascimento do filho.
A volta
No dia 19 de janeiro de 2015, em razão da implicação de diversos políticos, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, criou um grupo de trabalho para investigar os políticos envolvidos e convidou Andrey para fazer parte. “Ao longo de todo o ano de 2015 e até hoje, estou envolvido nessa investigação. Atuamos em diversos acordos de colaboração premiada, desde as negociações até a sua execução e corroboração. No caso do Delcídio do Amaral, eu participei de algumas oitavas. Cada colaboração traz um aspecto novo e amplia o conhecimento que se tem em relação aos fatos.”
O procurador afirma que, embora a Lava Jato não se baseie apenas em delações, o instrumento teve um papel importante em revelar como os fatos ocorreram em seu interior. “Sem ela, ficaria muito difícil saber o que em geral ocorre, em especial em crimes como corrupção, em que os fatos ocorrem entre quatro paredes, sem testemunhas e com poucas provas diretas.”
Andrey conta que as delações vieram ampliar o conhecimento sobre o megaesquema de corrupção espalhado no Brasil. “Em verdade, como o doutor Rodrigo Janot mencionou em uma mensagem, a Lava Jato não é o trabalho de apenas uma pessoa, mas sim o trabalho organizado, profissional e institucional de diversas pessoas e instituições.”
O procurador defende o fortalecimento institucional e uma reforma de todo o sistema processual penal para que se torne mais eficiente. “Atualmente, a Lava Jato é um ponto fora da curva e, sozinha, esta operação não vai mudar o país. Em verdade, deve-se aproveitar esta janela de oportunidade para, não apenas se fortalecer as instituições, mas sobretudo mudar o sistema processual penal brasileiro, que é completamente ineficiente como regra geral.”
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