29 de fevereiro de 2016, Jardim Paulista. Uma mulher de 22 anos, grávida de cinco meses, é agredida com socos pelo marido por ter atrasado o preparo do jantar. Na mesma data, outra jovem, de 25, grávida de três meses, procura a polícia para relatar agressões por parte do ex-marido, no Residencial Dourado. 14 de março de 2016, Jardim Aeroporto. Uma jovem de 23 anos, no terceiro mês de gravidez, recebe socos e ameaças do marido quando comunica decisão de voltar para sua terra natal. No mesmo dia, mais tarde. Garota de 13 anos é espancada por namorado de 18 ao contar a ele sobre sua gravidez. Na noite da última sexta-feira, o caso mais recente. Uma jovem de 18 anos leva quatro facadas do namorado ao avisar que estava grávida de 4 meses.
O agressor de 19 anos, já tem um outro compromisso. Irritado com a notícia, ele pediu que a jovem o encontrasse em sua casa. Os dois começaram a discutir e, no auge da briga, ele tentou asfixia-la com um saco de lixo. Ela se safou. Furioso, ele passou a mão em uma faca e a esfaqueou quatro vezes. Os golpes acertaram o abdômen, mãos e o pescoço da vítima que foi socorrida à Santa Casa. Ele fugiu, mas acabou preso.
Em um espaço de apenas 15 dias, pelo menos cinco gestantes foram agredidas por seus companheiros em Franca. Os fatos causaram indignação. De acordo com a delegada da DDM, Graciela Ambrósio, embora tenham causado furor, as situações narradas não são exceção. “Causou esse espanto porque, coincidentemente, os casos ocorreram em uma sequência muito próxima, mas vemos isso sempre na delegacia”, disse a delegada. “Um caso diferente, que não vemos com frequência, é o da menina de 13 anos, que apanhou porque foi contar sobre a gravidez. Isso foi bem específico. Habitualmente, as agressões acontecem em meio a discussões”.
Ainda de acordo com a delegada, se a agressão resultar em lesões que proporcionem risco de morte à mulher ou ao bebê, bem como aceleração do parto, o crime passa a contar com agravantes. “Quem detecta essas condições físicas é o médico legista. Quando constatado o aborto, por exemplo, a reclusão prevista como pena em casos de violência doméstica salta de três meses a três anos para dois a oito anos”,disse Graciela.
A delegada incentiva as vítimas a denunciarem os agressores e garante a adoção de medidas para protegê-las. “Acho importante as mulheres ficarem sabendo que a Lei dá uma amplitude de ação para protegê-las. Às vezes a mulher não denuncia pensando: mas aí ele não vai preso e o que eu vou fazer? Não. Temos a medida protetiva; a retirada do agressor do lar; alimentos provisionais imediatos; assistência jurídica gratuita e até a casa de proteção, onde ela pode ficar quando não tem para onde ir”, disse a delegada.
Danos psicológicos
Acostumada a atender ocorrências do tipo na própria DDM, a psicóloga Fabiana Zagolin afirma que gestantes são mais sensíveis às agressões dos parceiros. “Os próprios hormônios estão à flor da pele e as mulheres se tornam mais sensíveis. Uma situação como essa traz a elas vergonha. Elas chegam, para conversar, deprimidas, cheias de dúvidas e indefesas”, afirmou.
Para a psicóloga, o caminho para que essas mulheres possam se restabelecer começa com a reestruturação da autoestima. “O complexo de inferioridade pode ser enorme nesses casos e a mulher pode acabar achando que merece passar por aquilo. Isso tem que ser revertido e a mulher tem que perceber o seu valor”.
A situação
A reportagem tentou entrar em contato com as vítimas para falar a respeito dos episódios. Em dois dos endereços, uma das casas estava à venda e a outra disponível para locação. Uma terceira vítima não quis se pronunciar e a última não foi localizada. No entanto, na ocasião dos fatos, a jovem de 22 anos que foi espancada por seu marido, que se irritou pelo atraso do jantar, narrou como tudo aconteceu na noite do dia 29. “Ele não se importou se eu estava com nosso filho mais velho nos braços e outro na barriga. Quanto mais eu gritava e chorava, mais ele batia”, disse a sapateira.
“Trabalhei o dia todo, cheguei para fazer o jantar e o gás acabou. Eu liguei para uma empresa levar para mim. Ele começou a reclamar, disse que eu não prestava para nada, chutou os armários, quebrou alguns objetos e partiu para cima quando fui para a cozinha com nosso filho de um ano e meio no colo.” O homem desferiu vários socos na mulher deixando-a com hematoma.
Dos cinco casos citados, quatro dos agressores foram presos em flagrante, pela polícia. Apenas o homem que derrubou a gestante ao acelerar o automóvel não foi conduzido ao CDP (Centro de Detenção Provisória) de Franca.
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