Nasci poeta.
Deveria, portanto, manuseando frases e versos, tecer estradas, pavimentadas todas por camadas de serenidade. Deveria, portanto, plantar caminhos planos por sobre precipícios e por entre dunas e árvores, por entre florestas, por sobre serras e por sobre despenhadeiros. Deveria, portanto, criar alamedas ensombradas por folhagens de carvalhos, coloridas por sucessão de ramagens de ipês roxos e amarelos e brancos.
Nasci poeta.
Acontece que o menino que era em mim caiu apedrejado pelo estilingue da incompreensão e do desamor. O menino se desfez, e não mais caminhos, e não mais lápis de cor... Adeus, beleza.
O menino se esvaiu, restou no peito apenas o prosador – juntando rudes palavras, bárbaras prosas apenas. O menino se foi. Restaram ferramentas nas mãos disformes, os pés descalços. Com elas, venho recolhendo pedras e pedregulhos. Depois, com mente e corpo desajeitados, vou levantando calvários.
Persisto.
Rastejando que seja, ainda atravessarei o vale.
Tenho fé nisso. Tenho fé em que ainda me recostarei na linha do horizonte. Lá longe, lá no alto. Um dia, a brisa soprará sonhos na minha face outra vez.
Creio.
Nessa hora, meus olhos farão uma prece.
E, quem sabe, uma criança ressuscite.
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