‘A música é o caminho mais eficaz para acessar os seres humanos’


| Tempo de leitura: 4 min
A musicoterapeuta Juliana Tasso atua na UTI Neonatal do Hospital Regional desde 2007e busca, através da música, auxiliar os pacientes atendidos no local
A musicoterapeuta Juliana Tasso atua na UTI Neonatal do Hospital Regional desde 2007e busca, através da música, auxiliar os pacientes atendidos no local
“A música é o caminho mais eficaz para acessar o ser humano”. Acreditando nisso, a musicoterapeuta e psicóloga Juliana Tasso já intermediou despedidas dignas entre pacientes terminais e seus familiares; amenizou lutos e aproximou pais e bebês ainda no útero, bem como nos leitos da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal em que atua desde 2007, no Hospital Regional em Franca. “A música alcança de fetos a idosos. A primeira memória de um bebê é a auditiva e mesmo um paciente incomunicável responde ao estímulo da música. Vemos o resultado disso nos monitores de frequência cardíaca, pressão arterial e outros sinais vitais”.
 
Por haver uma resposta física aos estímulos musicais, Juliana, que se formou em musicoterapia pela Unaerp e em psicologia pela Unifran, afirma que o trabalho deve ser feito por um profissional e que não se trata apenas de ambientar o local com música. “Eu posso, por exemplo, desenvolver, através de uma estimulação musical, uma epilepsia em pacientes predispostos. Não pode ser algo banalizado e cada caso tem de ser pensado individualmente”, disse a musicoterapeuta. “Uma música que é agradável a alguns é irritante para outros”. 
 
Justamente por essa característica da música, o trabalho de Juliana se torna minucioso. Vai desde uma entrevista prévia com a família - para tentar conhecer um pouco sobre o paciente, principalmente os incomunicáveis -, a conversas com os mesmos e à própria observação. “Certa vez, uma mãe adolescente deu à luz um bebê prematuro. Ele estava conosco na UTI neonatal mas não respondia aos estímulos musicais como os outros. As músicas tidas como relaxantes o irritavam, ele dormia mal e estava sempre inquieto. Uma vez, a mãe veio visitá-lo e seu celular tocou. Era um rock pesado. Perguntei se era isso que ela escutava na gestação e ela respondeu que sim”. A partir da resposta, Juliana mudou o “remédio” da criança. “Adaptei aquele rock para algo um pouco mais suave e ele respondeu super bem. Dormiu tranquilamente como até então não havia conseguido”.
 
Adeus
As histórias que Juliana carrega consigo não são apenas de encontro; as despedidas também fazem parte de seu dia-a-dia. Foi assim com seu pai, a quem consolou com música ao fim de sua vida; com uma senhora que, no leito de morte, via um navio chegando com muitos parentes para levá-la de volta à Itália ao som da voz de Juliana - que entoava canções do país - e de uma mãe, que não chegou a tempo de ver o filho partir.
 
“Essa história me marcou profundamente”, disse sobre esse último caso. Juliana disse que o garotinho, de uns 12 anos, estava internado e todos os dias faziam um trabalho de musicoterapia com ele. “A mãe sempre cantava uma canção e ele sorria muito. Um dia, cheguei ao hospital e a equipe estava toda ao seu redor, mas o caso era irreversível. Perguntei se eu poderia entrar, se não atrapalharia, e o médico me permitiu. Eu sabia que a minha não era a voz da mãe dele mas que ele reconheceria a melodia. Comecei a cantar a música dos dois: mas talvez você não entenda / essa coisa de fazer o mundo acreditar / que meu amor não será passageiro / te amarei de janeiro a janeiro /até o mundo acabar. E ele fez sua passagem”. 
 
Quando a mãe chegou ao hospital, foi acolhida pelo abraço de Juliana e não foram necessárias palavras para que a notícia fosse dada. A pedido da musicoterapeuta, todos os tubos e entradas foram retiradas do garotinho e a mãe pode abraçá-lo da forma como ela não o via fazia meses. “E nós cantamos para ele mais uma vez. Foi um ritual para que a mãe vivenciasse o próprio luto e pudesse seguir em frente com a certeza de que fez o que podia por ele”.
 
O início
Uma dos sete filhos do sapateiro José e da dona de casa Terezinha, Juliana Maria Tasso Braga teve uma infância sem luxos. No entanto, foi levada ao mundo da música muito cedo por incentivo do pai. “Ele dizia que eu precisava aprender um instrumento e me colocou para tomar aulas de piano. Aos 16, me formei pelo conservatório de música Ars Nova”.
 
Assim que graduou, passou a dar aulas de iniciação musical. Por motivos financeiros, acabou atuando em outros ramos, como o comércio, onde teve um novo encontro com a música. “Fui convidada a dar aulas no Monteiro Lobato-COC e atuei também na escola da Lúcia Helena Garcetti. Lá, tive um aluno com Síndrome de Down e descobri que o que estava fazendo por ele era muito mais terapêutico do que didático”. A partir daí, percebeu que poderia unir duas áreas de seu interesse: música e reabilitação.
 
“Descobri o curso de musicoterapia e me encontrei. Depois, quis me aprimorar e cursei também psicologia. Hoje, não consigo mais separar uma área da outra em meu ofício”.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários