‘O homem dependerá da medicina regenerativa’


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Especialista fala sobre a importância da coleta de células-tronco diretamente do cordão umbilical de recém-nascidos
Especialista fala sobre a importância da coleta de células-tronco diretamente do cordão umbilical de recém-nascidos
Considerado um dos maiores ginecologistas obstetras do país, com mais de 10 mil partos no currículo, Alberto d’Auria, de 61 anos, é especialista na coleta e armazenamento de células-tronco em recém-nascidos. O médico, que completa 38 anos de experiência em 2016, formou-se na Unisa (Universidade de Santo Amaro), em 1978. Desde então, passou a trabalhar como obstetra e, em 1999, teve o primeiro contato com as células-tronco, após o incentivo de uma amiga oftalmologista. Hoje, ocupando o cargo de diretor médico da Cryopraxis, empresa pioneira em armazenamento de células-tronco no país, ele viaja o Brasil oferecendo treinamento sobre os procedimentos de coleta, além de falar sobre os tratamentos relacionados às células-tronco.
 
Em 15 anos, ele estima que tenha realizado cerca de 300 procedimentos de coleta de células-tronco a partir do cordão umbilical em suas pacientes. Segundo o profissional, 99% dos cordões umbilicais são descartados como lixo hospitalar. Apesar disso, ele acredita que o procedimento será popularizado em breve e garante: “esses tratamentos são a garantia de um futuro com mais qualidade de vida”. Para ele, a medicina regenerativa é a medicina do novo milênio e só é possível com o auxílio das células-tronco.
 
Permeado por polêmicas e dúvidas, o armazenamento de células-tronco vem crescendo a cada ano e, de acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), até o ano passado ultrapassou a marca de 90 mil unidades de sangue do cordão umbilical armazenadas no Brasil.
 
Nessa semana, o especialista esteve na Unifran (Universidade de Franca) e falou para dezenas de estudantes de medicina e profissionais da área de saúde sobre as patologias que, segundo ele, apresentam resultados efetivos com o tratamento usando células-tronco. Durante o evento, ele recebeu a equipe do Comércio e esclareceu dúvidas sobre o tema.
 
Quando foi o primeiro contato do senhor com as células-tronco?
Em 1.999, uma amiga oftalmologista, que trabalhava com o transplante de córneas, me procurou para saber se eu gostaria de ajudá-la com o processo de transplante através da doação de bolsas amnióticas (que revestem o bebê dentro do útero da mãe), que são normalmente descartadas, para que ela usasse. Assim, o assunto passou a chamar minha atenção. Dois anos depois, quando eu dirigia a maternidade do Hospital São Luiz, em São Paulo, surgiu a oportunidade de se implantar lá o primeiro posto de coleta de células-tronco de cordão umbilical do Brasil. Montamos esse posto, em 2001. A partir desse momento, me aproximei bastante das células-tronco e toda a sua história. Fui aprendendo, ensinando e evoluindo. Apesar disso, hoje ainda estou bem atrasado em relação ao que o mundo precisa. Mas, com certeza, as pesquisas avançaram muito nos últimos 15 anos, porém ainda é necessário evoluir muito.
 
Como surgiu a ideia de que as células-tronco poderiam auxiliar nos tratamentos?
Surgiu baseada no comportamento dessas células que aceitam comandos e ordens, desde que você saiba que ordens dar para elas. E, a partir do momento que você realiza essa ordem de forma correta, as células-tronco podem se transformar em uma outra célula ou tecido que você queira. 
 
Como é realizada a coleta de células-tronco em recém-nascidos?
O material a ser armazenado deve ser retirado do cordão umbilical porque o sangue do cordão umbilical é rico em células-tronco. Todo o processo para a coleta do material é tranquilo e, principalmente, indolor, tanto para a mãe quanto para o bebê. Após o nascimento, o cordão umbilical é pinçado e cortado. O sangue que permanece no cordão umbilical é, então, coletado, congelado e posteriormente armazenado. A coleta é realizada pelo obstetra, com o auxílio de uma enfermeira. E, o mais importante, a decisão de coletar as células-tronco do cordão umbilical deve ser realizada antes do parto, pois é necessária uma preparação para garantir que tudo seja feito da forma correta. 
 
Qual a diferença entre o procedimento de células-tronco realizadas em adultos e em recém-nascidos?
As células-tronco de recém-nascido, de cordão umbilical, é uma célula com idade zero. E a células-tronco de adulto tem a idade do adulto, portanto já sofreu as agressões que o adulto se expôs durante a sua vida, por exemplo, poluição, antibióticos, tabagismo, infecções virais. A do recém-nascido tem idade zero, por isso é uma célula que tem um resultado melhor, diferente de células-tronco de outras fontes.
 
Existe comprovação que as células-tronco são úteis para tratamentos de saúde? Para quais tipos de patologias?
Hoje, mais de 80 doenças podem ser tratadas com as células-tronco do sangue do cordão umbilical. Entre as mais conhecidas estão as autoimunes, como diabete tipo I, esclerose lateral, leucemia, linfomas, talassemia, a aplasia de medula. Também temos registrado resultados compensatórios em casos de Alzheimer e Parkinson. Em relação à esclerose múltipla, os estudos ainda estão em andamento, mas é preciso ressaltar que a cada dia descobrimos mais casos de sucesso relacionados à utilização de células-tronco. Em todos os casos em que existem resultados positivos com a utilização de células-tronco retiradas da medula óssea de adultos é possível usar as armazenadas do cordão umbilical.
 
Como é realizado o tratamento com células-tronco?
Podemos usar, como exemplo, a leucemia. Nesse caso os pacientes realizam todo o tratamento convencional, com a quimioterapia e seus efeitos colaterais. A diferença é que após a quimioterapia, que tem como função “matar” as células tumorais, é feita a infusão das células-tronco. Elas farão a função das outras células e se integrarão como células naturais do corpo humano, ajudando-as a se manterem saudáveis. O procedimento é parecido em todas as patologias. 
 
Como é o estudo de células-tronco no país?
Infelizmente, ainda existe muita burocracia no país para os estudos relacionados às células-tronco. Mas já evoluímos bastante e, a cada dia,novas evidências da eficiência das células-tronco surgem. Atualmente, estamos estudando a eficácia em casos de lesões cerebrais causadas por asfixia durante o parto. O procedimento é realizado dias depois e já existem evidências de resultado positivo nesses casos.
 
As células-tronco armazenadas podem ser utilizadas em outras pessoas ou apenas pelo próprio doador?
Antes as células-tronco eram utilizadas apenas nos próprios doadores. Há cerca de dois meses, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou que as células-tronco armazenadas possam ser utilizadas também nos familiares. Assim, com a nova resolução, mãe, pai e irmãos também podem ser beneficiados. Hoje, temos células-tronco armazenadas, no máximo, há 24 anos, que mantêm a mesma integridade celular.
 
Existe alguma contra-indicação para a coleta de células-tronco?
Gestantes com menos de 32 semanas, infecções na bolsa amniótica, algumas infecções no período do pré-natal, com doenças infecciosas como o HIV, na maioria das vezes, não armazenamos. Porém, é importante ressaltar que cada caso é tratado de forma específica.
 
Quanto, em média, os interessados em armazenar células-tronco do cordão umbilical terão que desembolsar?
O primeiro procedimento de armazenamento de células-tronco no Brasil custou US$ 4,6 mil. Agora, as famílias que optarem por realizar o procedimento desembolsarão, no primeiro momento R$ 3,8 mil e, nos anos seguintes, pagarão R$ 600. A cada dia as pesquisas avançam mais e, tenho certeza, de que nos próximos anos o valor deve cair ainda mais. 
 
Quem não possui condições de realizar o armazenamento na rede privada tem algum recurso para que seja feito pela rede pública?
Atualmente, o país possui 13 postos de coletas de células-tronco públicas. Um deles, é em Ribeirão Preto. O problema desse armazenamento é que, diferente do privado, as células são armazenadas em um banco que pode ser utilizado por qualquer pessoa compatível que necessite desse tratamento. Além disso, é um serviço público, e a gestante terá que conseguir uma maternidade onde o processo é realizado e a equipe responsável pela coleta terá que estar disponível no momento do parto, o que nem sempre é viável, dependendo muito das condições, horários e dias que os procedimentos são realizados. Em breve, com o aumento na capacidade de armazenamento, a Cryopraxis oferecerá 10% da sua cota para famílias de baixa renda. Nesses casos, as famílias que possuírem renda inferior a cinco salários mínimos e que tenham casos de doenças que são tratadas com células-tronco nos seus integrantes, poderão participar da seleção. 
 
Desde quando chegou no Brasil, aumentou o número de mães que armazenam células-tronco de seus filhos?
Muito. E a tendência é aumentar a cada dia mais. Tenho certeza de que, no máximo em dois anos, a coleta de células-tronco do cordão umbilical deve se popularizar muito. O avanço das pesquisas, a comprovação dos resultados e a necessidade de tratamentos devem garantir esse crescimento. E a medicina regenerativa, processo de substituir ou regenerar células, tecidos ou órgãos humanos para restaurar as funções normais, é a medicina do terceiro milênio. Então, para o homem viver mais, ele dependerá dessa medicina e ela só existe se acontecer o bom manuseio das células-tronco. 

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