Depois da fala, o fator civilizatório mais importante para humanos foi o desenvolvimento da escrita. Ela ensejou ao homem guardar a cultura de maneira eficiente. Mais ainda, transmiti-la às gerações seguintes. Com a escrita tornou-se mais fácil expor ideias, compartilhar sentimentos e... registrar para os contemporâneos e os pósteros relatos que já circulavam oralmente.
O papel, que sucedeu ao pergaminho e ao papiro, foi suporte para letras, ideias e fantasias. Ele tornou possível a imprensa. E os livros que são a forma pela qual nos comunicamos até com os que já passaram pelo planeta, nos legando história e estórias. Muitas delas, mais velhas que algumas nações, sobreviveram às culturas onde foram contadas pela primeira vez.
Chegados ao século da revolução tecnológica, onde o digital vai substituindo rapidamente o analógico, a palavra escrita continua mais importante do que nunca : no mundo da web as pessoas navegam com palavras e para que alcancem nível razoável de comunicação com o uso adequado da linguagem, precisam estar realmente alfabetizadas.
E a partir do conceito de que alfabetizado é aquele que consegue ler e compreender um texto, a forma mais simples de ter certeza de que alfabetizamos crianças é ensiná-las a ler mostrando que essa atividade é prazerosa. Como fazer isso? Encontrando livros diversos de que elas possam gostar e lhes facilitando o acesso deixando que escolham.
As orações gerundivas do período anterior parecem verdades acacianas, mas há nelas nuances que podem passar despercebidas e impedir o adulto de despertar na criança o universo extraordinário da leitura prazerosa. “Livros diversos” significa todos os possíveis e outros além daqueles que o adulto crê que sejam bons; “acesso facilitado” pressupõe ausência de entraves burocráticos e total disponibilidade; “escolha” é liberdade. Conheço professores e pais bem intencionados que sem o querer destroem o amor nascente entre a criança e o livro oferecendo obras que consideram básicas porque as leram na infância ou títulos importantes segundo critérios muito subjetivos. Diante desta situação o pequeno leitor vai se convencer rapidamente de que ler não é coisa legal.
Neil Gaiman, criador dos quadrinhos Sandman e de outras obras infanto-juvenis em língua inglesa, costuma dizer que “não existem autores ruins para crianças, se elas gostam e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Elas podem encontrar as histórias de que precisam e levar a si mesmas para estas histórias. Uma ideia banal e desgastada para um pai não é banal nem desgastada para o filho, se é a primeira vez que este a encontra. E nem todo mundo tem o mesmo gosto.”
Leitura agradável é a que dá prazer; isso parece óbvio. Mas é essencial que seja compreendido em sua essência. A leitura prazerosa é aquela que vicia porque desperta o desejo de saber o que estará escrito na página seguinte, no capítulo seguinte, no episódio seguinte, no volume seguinte, nos livros seguintes. É um tipo de droga, no melhor dos sentidos, que nos pede cada vez mais. Se a parte prazerosa do cérebro foi ativada, o hábito de leitura se formará com facilidade e marcará toda a vida do leitor. A criança que sentiu prazer numa leitura, vai querer repeti-lo em outras.
Sempre é bom lembrar que ler um livro é diferente de assistir a um filme. Na tela grande ou pequena vemos coisas acontecendo a outras pessoas. Na prosa de ficção, a partir de 26 letras e alguns sinais de pontuação, temos de construir com nossa imaginação todo um mundo e povoá-lo através do olhar do autor, que pode ser narrador ou personagem. Sentimentos são despertados, paisagens visitadas, seres muito diferentes de nós se constroem em sua singularidade e nos apresentam à diversidade humana. Habitamos a ficção enquanto lemos e ao voltarmos ao nosso próprio mundo estamos de alguma forma transformados. Acontece com todos- adultos e crianças. Eis a grande magia dos livros.
Como Douglas Adams ( escritor que mirou premonitoriamente o alcance da Internet e a quem o Google homenageou com um Doodle póstumo), não acredito que os livros migrarão in totum para as telas. O livro físico é como um tubarão, dizia ele: “Tubarões são velhos, existiam nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são tubarões, difíceis de destruir, operam à luz do sol, ficam bem na sua mão; eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Livros pertencem a bibliotecas, lugar que é repositório de informação e permite a cada pessoa acesso ao conhecimento e ao prazer de ler.”
As geladeirotecas são um tipo de biblioteca criada por mulheres de Franca que amam os livros e revelam simpatia para com as crianças e com os adultos que essas crianças se tornarão. Sabem que oferecer livros diferentes de maneira descomplicada é contribuir para escolhas livres que têm a ver com a individualidade. Entendem que uma história contada em voz alta é momento de mágica aproximação e deslumbramento entre os que ouvem e quem conta. Apostam no poder da linguagem para a comunicação clara dos desejos e necessidades infantis. Creem na força da imaginação capaz de mudar vidas. Cultivam a esperança de tornar mais belas algumas coisas feias do mundo. Acreditam, pois são leitoras vorazes, que tudo muda para melhor quando lemos. Elas estão cumprindo um papel que caberia à instância dos governos, qual seja, distribuir livros por compreender o valor da leitura na criação de indivíduos criativos e cidadãos decentes.
Uma vez perguntaram a Einstein como seria possível tornar as crianças mais inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “ Se vocês querem que as crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fada para elas. Se vocês querem que sejam mais inteligentes, leiam mais contos de fadas para elas!” O gênio defendia o valor da leitura e da imaginação. Penso que as mulheres do Projeto Roda Livro formam-se nesse mesmo entendimento e buscam contribuir para que as crianças francanas tenham oportunidade de ler, imaginar, transformar o mundo à sua volta. Por isso as cumprimento aqui, nesse sábado de março em que o projeto Roda Livro , cujo objetivo é despertar em crianças e adultos de nossa cidade o prazer de ler, completa seu primeiro ano de existência. Parabéns pela atitude cívica, Rita Moscardini, Elaise Barbosa, Maria Luiza Salomão, Tânia Liporoni, Regina Bertelli e Solange Borini.
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