‘Queria pegar na mão de cada mãe de bebê com microcefalia’


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Aline da Silva com o filho Vitor, que tem microcefalia: “É um anjo que chamamos de filho”
Aline da Silva com o filho Vitor, que tem microcefalia: “É um anjo que chamamos de filho”
“Mãe especial”. Este é o termo que a batataense Aline Aparecida da Silva, de 26 anos, gosta de citar quando é questionada sobre as atividades que exerce. Mãe de Caira, 10, e Vitor, 8, ela divide sua rotina entre os afazeres domésticos e os cuidados com os filhos, especialmente com o caçula, portador de microcefalia, uma má-formação cerebral que pode trazer problemas ao desenvolvimento da criança.
 
Ela e o marido, o metalúrgico Anderson Rosa, 32, nunca tiveram esclarecimento ou entendimento completo sobre o que teria motivado a condição do filho. Mas o que eles não tiveram dúvida em nenhum momento foi de que o filho seria amado, de forma macro e intensamente, independente da maneira com que ele se desenvolvesse.
 
Quando Vitor nasceu, Aline contava apenas 18 anos, estava tranquila e empolgada com a chegada de mais um bebê na família. Ela conta que até completar seis meses de vida, Vitor se desenvolvia aparentemente de forma normal, até que a experiência de quem já cuidava da primogênita, então com 2 anos, fez com que Aline desconfiasse de que a deglutição, o choro insistente e o posicionamento do corpo do bebê não estivessem normais. “Levei ao pediatra, ele não diagnosticou nada, mas nos encaminhou para a Apae de Batatais. Lá, fizeram tudo por ele, me disseram que ele era ‘especial’ e me encaminharam para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto para que um diagnóstico fosse fechado”, disse.
 
Em uma época em que a condição não era tema recorrente nos noticiários - como é hoje por conta da associação com o zika vírus -, Aline conta que foi pega de surpresa com o nome “microcefalia” grafado no diagnóstico e exaustivamente explicado pelo corpo médico. “Eles me falaram que a cabecinha dele era menor, desproporcional ao corpo, e que havia comprometimento cerebral. Eu nunca tinha ouvido falar disso, não sabia o que era. Fiquei triste no começo, pois estava descobrindo que ele seria totalmente dependente de mim para sempre, mas logo fui me acostumando”, afirmou.
 
Lições
Os primeiros meses foram de aprendizado. “Eu tinha medo de tudo, de estar fazendo tudo errado. Os cuidados sempre foram totalmente diferentes dos de uma criança normal. Ele logo colocou a sondinha para alimentação e eu me esforcei para aprender tudo. Fui ficando mais calma e entendi que daria conta do recado.”
 
A equipe médica que o atendeu orientou que um melhor desenvolvimento dependia de estímulos que viriam com intervenções de fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e neurologistas. A família providenciou tudo rapidamente. “Não tive dificuldade nenhuma para conseguir os atendimentos. A Apae de Batatais nos acolheu desde o início e é lá que ele recebe todo o atendimento que necessita”.
 
Ela conta que Vitor tem predileção pelas atividades que envolvem música, principalmente as apenas instrumentais, e desenhos infantis. Ele não anda, não tem firmeza para sustentar o corpo em certas posições, não se alimenta pela boca, não fala - o que não quer dizer que ele não se comunique. Segundo Aline, o brilho no olhar e o sorriso escancarado dizem muito mais do que palavras.
 
Enquanto ele evolui, a família é que aprende mais. “Ele nos ensina, no dia a dia, a dar mais valor à vida e a ter mais e mais amor. Para nós, o que importa é que, independe do jeito que ele é, sabemos que ele é feliz”.
 
Surto de microcefalia
Como mãe de uma criança com microcefalia, Aline afirma que ter em casa alguém nesta condição não é fácil, mas não é o fim do mundo. Por isso, ela tem repetido, inclusive nas redes sociais, que seu desejo é acalmar as novas e futuras mães de bebês microcefálicos, já que o número de casos da deficiência disparou com a chegada do zika vírus ao País e a associação do problema com a infecção da mãe no período de gestação. “Diante desse surto, minha vontade é pegar na mão de cada mãe que está grávida ou que já está com seu bebê nos braços e dizer a elas que esta é uma oportunidade de descobrir o mais puro amor”.
 
O melhor a se fazer, segundo ela, é absorver a realidade como se fosse apenas uma particularidade como tantas outras que todo mundo tem. “Hoje eu não procuro a cura para ele. Procuro dar o máximo que eu posso de carinho para ele que é do que ele mais precisa. Não busco o porquê da doença, só busco fazer o melhor que eu posso”.
 
Para Aline, possivelmente Vitor nunca consiga dizer com palavras que a ama, mas ele grita isso com os olhos e o sorriso. “É um anjo que chamamos de filho”.
 
 

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