Coraçãozisse


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Domingo passado perdi mais uma amiga para a morte. Não há o que fazer. Ninguém, como diz a sabedoria popular, fica para semente. D. Augusta Paludetto, que aprendi a gostar por sua forma direta de dizer as coisas; por seu amor ao rádio, e, especialmente por seu olhar ‘diferente’ — conhecia-me a ponto de saber se meu mau humor era só o de sempre, ou se havia algo mais me perturbando —, se foi. 
 
Penso que ela tenha dito, com todas as letras, um de seus palavrões para ranhetar contra o fim da vida terrena que lhe impediria, dali em diante, relacionar-se com o rádio que amava, com radialistas que fizeram dela quase uma segunda mãe e, primordialmente, para ter que deixar de fazer seu tradicional café da tarde para tantos quantos sua casa pudesse agasalhar. D. Augusta não era deste mundo. Acho que Deus, que a enviou para passear por aqui, cansou-se de não tê-la lá perto dele. 
 
Pretendia falar dela, eu próprio, hoje, mas surpreendi-me com belo texto que me foi enviado por um dos bisnetos dela, o Estevão Barros Chaves. É um tratado de coraçãozisse. Não poderia eu fazer melhor que ele, e então, publico.
 
‘Para mim, a foto que mais representa minha bisavó é aquela em que faz um gesto feio para um primo. O dedo do meio erguido enquanto todos riam foi muito mais que momento de descontração. Marcel, o primo em questão, estava enchendo ela — ‘come, vó. Comeu pouco!’. Tentava revidar as inúmeras vezes em que ela falava prá gente comer mais. Coisa de vó. A foto mostrava seu lado brincalhão, e também, sua eterna correspondência às nossas babaquices. Foi sempre consciente de que a vida sempre mais que uma multidão de anos vividos. Sabia que a vida é a reunião dos bons momentos, e se esses bons momentos exigem palavrões ou gestos menos nobres, que assim fosse! 
 
Quando finalmente se rendeu ao merecido final de longa e belíssima jornada, deixou a todos inconformados com a brevidade de seus quase 98 anos. Sua companhia era agradável e necessária. Era impossível ficar indiferente à sua disposição e vivacidade. Sua casa, sempre cheia, tinha ar de luxúria, assim como sua aparência e modos. 
 
A vaidade não era pecado em sua vida, tampouco capricho. Manicure semanal, bobs no cabelo, colares, pulseiras, brincos e anéis. Suas xícaras de café, as adquiriu porque achava que combinavam com sua personalidade aristocrática. Em seu inventário, tem mais. Tem roupas costuradas à mão, peças absolutamente exclusivas — quem tem um bordado feito por dona Augusta Paludetto não me deixa mentir. Tem seu jardim, que lhe proporcionava horas de cuidados, todas felizes. Tem suas fotos antigas e tem seus recortes de jornais falando dela própria. Esses recortes, aliás, mostram a senhora querida e visitada por muitos, orgulhosa de suas amizades, corujice por sua família e por sua história. E havia suas caminhadas, que duraram até o fim, suas idas ao supermercado do Aparecido Ponce. 
 
Uma vez, mencionei a ela que talvez precisasse passar uma noite em sua casa, mas sem dar-lhe certeza. Nem pisquei e o sofá, com coberta e travesseiro já estavam prontos. Era assim com a gente e com quem gostava. Para um bom café e uma boa conversa, bastava estar em sua casa às 16 horas. 
 
Quem não conviveu com essa figura única pensará que há, nestas lembranças, só saudosismo de bisneto que a amava. Se não acredita, pergunte a quem a conheceu. Não haverá exagero se a descreverem com a energia de uma jovem de 20 anos, a vaidade de uma madame de 35 e a sabedoria de uma senhora de 97 anos, 11 meses 20 dias. Se não a conheceu pessoalmente, pena! Não existem mais muitas pessoas certas de que o ápice e a alegria da vida, são a própria vida!’
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 
 

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