Fujo do sol, recorro à camuflagem e à máscara. Armado unicamente da bateia velha, com seu fundo já gasto pelo atritar do cascalho, viajo-me todo inteiro pelos meandros de meu garimpo.
Perambulo pela areia, o olhar dormido no infinito ou no cume das montanhas lá longe. Depois, os calcanhares de minhas botinas rotas arrancam rangidos das tábuas molhadas, enquanto minha alma divaga pelo cais.
E tudo é música.
Esgueiro-me por entre casebres, piso chão irregular de becos e vielas.
Busco as sombras e, na penumbra de botecos sórdidos, perdido em meio à fumaça que meu cigarro alimenta, abraço párias de todas as cores, desterrados de todos os desertos. Limpos e inocentes, erguemos nossas canecas, num brinde ao que nos faz siameses.
Carrego o alforje com as pepitas recolhidas. Apoio as costas na umidade do muro, deixo os dedos escorrerem pelas gretas da parede. Afago ternamente a hera que nasce nas pedras.
E tudo é música, tudo é pepita.
Quando acontece de o sol me descobrir, buscando esconderijo na praça, sob a árvore, ele aponta um cento de dedos de fogo em minha direção, e sua voz queima o bom-senso.
Desnudo pela claridade, viro alvo só, fácil.
Então me chovem pedras de todos os tamanhos, gotejam-me feridas de todas as dores.
Um guarda-chuva messias não me há.
A plebe ignara não sabe, não enxerga.
O coração do cantor só pulsa, só canta quando alimentado por muitos, muitos amores.
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